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Conversa com especialista: fábrica de ração na fazenda e a alimentação de qualidade para a pecuária brasileira

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Fábrica de Ração. Foto: Confinamento VFL Brasil.
Fábrica de Ração. Foto: Confinamento VFL Brasil.

Além de uma boa qualidade de pasto e sanidade para o gado, o produtor rural tem plena noção que é necessário, em muitas situações, uma suplementação alimentar para uma engorda de qualidade.

No entanto, em alguns casos, por questões de logística e matéria prima, a compra de ração acaba não sendo o caminho mais viável. Para contornar este problema, muitos produtores estão montando pequenas fábricas de ração em suas propriedades.

Mas como montar uma fábrica de ração? Quais os principais maquinários? Quando esta é a melhor opção?

Para responder estas e outras dúvidas recorrentes, a Agromove entrevistou o especialista Antonio Sérgio Prandini.

Introdução

Antonio Sérgio Prandini, formado em 1976 em Engenharia Agronômica pela ESALQ-USP. Pecuarista e CEO da Companhia Multi Industrial – Sistemas de Armazenagem de Grãos.

Questões

Agromove: A partir de que momento, ter uma fábrica de ração na fazenda é vantajoso?

Antônio Prandini: Existem muitas variáveis nesta equação, já que em diferentes regiões do país os custos de disponibilidade de produtos e a logística são muito diferentes.

Basicamente o investimento em uma fábrica de ração deve ser pautado pela relação Custo/Benefício, como em tudo mais. Busca-se não ter estruturas com grande tempo de ociosidade, o que torna a fábrica de ração muito mais viável para os casos de produção intensiva o ano todo, do que nos programas sazonais de suplementação.

O que vai ditar o volume mínimo de produção para fábricas pequenas, é também a oferta regional de ração comercial, seus preços, qualidade e número de fornecedores alternativos.

AG: Por onde devo começar o projeto de uma fábrica de ração? Quais os principais pontos a se considerar em um planejamento?

AP: O produtor normalmente contrata uma assessoria para este planejamento. Define o tipo de suplementação que irá utilizar através do planejamento estratégico, se apenas suplemento a pasto, confinamento ou ambos.

O sistema projetado irá definir quantos tipos de ração será utilizada, crescimento, acabamento, etc.

As metas comerciais são estabelecidas e o tamanho do rebanho planejado.

Muito importante é a pesquisa de oferta regional de matérias primas. Há regiões onde existe oferta de polpa cítrica, outras de caroço de algodão e aí por diante.

Por fim, o dimensionamento dos equipamentos e instalações, tendo em vista a otimização do uso e, muito importante, reservas estratégicas para eventualidades, como falta de energia ou paradas para manutenção.

AG: Qual o maquinário básico para a implantação? Posso financiar estes equipamentos?

AP: Para o básico, precisamos dos locais de armazenagem de matérias primas, a movimentação das mesmas, a mistura e o armazenamento estratégico de ração misturada.

Para uma boa armazenagem da matéria prima, o ideal são silos, pois têm maior higiene e proteção, com menor desperdício, fatores fundamentais que impactam o custo final da ração.

O armazenamento em baias não tem a mesma segurança e eficiência, além de requerer movimentação com máquinas/tratores.

Em alguns casos, porém elas são necessárias. O caroço de algodão, muito utilizado em algumas regiões devido à sua oferta e baixo custo, não pode ser armazenado em silos, pois a massa não flui adequadamente.

A movimentação pode ser feita com roscas, chopins, correias transportadoras ou redlers, tudo dependendo do tamanho da fábrica e da vazão pretendida.

Finalmente, o misturador com duas opções básicas: o modelo clássico fixo instalado na fábrica ou os vagões forrageiros que podem fazer a mistura de concentrado e volumoso com balança de fluxo embarcada.

A qualidade dos equipamentos é outro item de grande importância, já que o mercado oferece de tudo e o produtor deve resistir à tentação de escolhas baseadas apenas em preços. Neste caso também, o barato sai caro!

O layout da fábrica é importante para facilitar o recebimento dos produtos, o manuseio, sua estocagem (matérias primas e produtos acabados), e a expedição, ensacado ou a granel.

A grande maioria destes equipamentos pode ser financiada, sendo a linha de crédito mais usual o FINAME. O Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA) também pode incluir parte da estrutura.

Fábrica de Ração.
Foto: Confinamento VFL Brasil.
Fábrica de Ração.
Foto: Confinamento VFL Brasil.

AG: O que é necessário para produzir uma ração de qualidade na fábrica implementada na fazenda?

AP: A qualidade da matéria prima sem dúvida é fundamental, porém nota-se em muitos casos problemas de contaminação dos produtos quando mal armazenados e manipulados. Esta contaminação tem efeito devastador no custo da ração.

Os protocolos de higiene e segurança devem ser seguidos com rigor pela mesma razão.

As balanças precisam ser aferidas com certa frequência.

A operação de mistura também deve ser muito bem orientada quanto ao tempo mínimo para uma mistura homogênea, fundamental para a qualidade final do produto. A qualidade da mistura deve ser constantemente avaliada.

AG: Como fazer o balanceamento e a formulação de dieta ideal?

AP: O balanceamento, normalmente é calculado e ajustado caso a caso por um profissional de nutrição animal, levando em conta todos os fatores zootécnicos. Tipo de animal, sexo, idade e raça. Peso inicial e meta final para abate. Ganho de peso diário otimizado desejado, tamanho e homogeneidade dos lotes e dos piquetes ou pastos. Água de boa qualidade e de acesso facilitado. Se há ou não oferta de forragem e implementação de protocolos de bem estar animal.

AG: É viável para o pequeno produtor investir em uma fábrica de ração em sua propriedade?

AP: Sim, é viável, desde que bem ajustada e com baixa complexidade. Existem modelos muito simplificados que permitem este tipo de fábrica. Mas, sem dúvida, a matéria prima que mais impacta o custo final é o milho, pelo volume utilizado e pela maior variação de preços entre os períodos de safra e entressafra. Eu diria que a armazenagem do milho é o gargalo da eficiência. Não adianta ter uma fábrica sem estoque de milho. O ganho da fabricação será perdido na compra desprogramada do milho.

Fábrica de Ração.
Foto: Confinamento VFL Brasil.
Fábrica de Ração.
Foto: Confinamento VFL Brasil.

AG: Como conseguir matéria prima para as rações e quais as principais utilizadas?

AP: Como já mencionado anteriormente, a pesquisa de oferta regional é fundamental, já que a logística tem custo elevado para o produtor.

As fontes de proteína usuais são derivadas de soja e algodão, e mais atualmente, em várias regiões onde houve grande expansão da indústria de etanol de milho, a oferta de DDG está sendo muito vantajosa, desde que sempre se observe o custo da logística.

Em alguns casos, existe oferta do WDG que tem maior limitação de uso, por ter muito mais umidade, tem o custo de transporte muito alto, sendo viável apenas em áreas vizinhas às usinas, além de difícil armazenagem e susceptibilidade à deterioração.

O milho certamente está presente em quase a totalidade das dietas.

Os resíduos de limpeza de cereais (milho e soja, principalmente) também são fontes baratas, muito embora não sejam matérias primas padronizadas. Estes produtos são normalmente utilizados pelos produtores que têm estrutura de armazenagem, pois o processo de padronização dos cereais é que gera estes resíduos, que têm valor importante.

Há ainda derivados de girassol, sorgo, polpa cítrica, além de concentrados de alto valor proteico derivados de soja (60% PB).

AG: Dado que a ração representa ao redor de 20% do custo de um confinamento e as oscilações nos preços destas commodities podem chegar a 40% no ano. Quais as opções para armazenar alimentos na fazenda?

AP: Tudo deve obedecer a um planejamento estratégico. O produtor, cada vez mais profissionalizado e assessorado, precisa acompanhar as variações de preços de mercado diariamente para fazer boas compras. Comprar bem é fundamental, mas para isso é preciso ter onde guardar, já que as melhores compras não são no período de uso mais intenso.

O caso do milho é um exemplo clássico. Comprado na safra e armazenado em silos adequadamente, torna-se estratégico no sistema, não apenas pelo preço de aquisição, mas pela economia em frete fora do pico de safra.

AG: Quais são as vantagens e desvantagens de armazenar em silo bolsa e silo graneleiro?

AP: O silo bolsa tem um caráter mais provisório, já que deve ser descartado após o uso. Os graneleiros têm vida útil de várias décadas, além de baixa manutenção, facilidade de movimentação dos produtos, segregação de qualidade, grande proteção contra intempéries, pragas e predadores, etc..

AG: Qual o tempo de depreciação de um silo e do maquinário de uma fábrica de ração?

AP: A taxa de depreciação fiscal, tanto das instalações quanto dos equipamentos, é de 10% ao ano (10 anos). Já a depreciação gerencial é variável para cada caso, mas muitos a consideram próxima a 5% (20 anos). Isto absolutamente não quer dizer que os equipamentos durem apenas 20 anos.

Da mesma forma, a amortização do investimento será tanto menor quanto mais intensivo for seu uso, porém o fator de maior peso no período de amortização será dado pela eficiência do produtor na aquisição de insumos, principalmente o milho. O milho bem comprado, na época certa, tem um peso enorme nesta conta.

AG: Quais os pontos principais a serem monitorados para que os produtos da fábrica mantenham sempre uma boa qualidade?

AP: A umidade é fundamental. Pontos de umidade dentro de uma massa de cereal causam fermentação e deterioração do produto. Este monitoramento em silos é feito através de um sistema de termometria, com sensores em vários pontos da massa de grãos. Se um foco de calor (fermentação) é detectado, a ventilação forçada é acionada para neutralizá-lo.

Por razões óbvias, os silos não podem ter pontos de infiltração de umidade no teto, paredes e, principalmente, na base.

As fábricas que trabalham com grandes volumes e mais intensamente, geram uma quantidade de pó muito grande, que em alguns casos, pode ser prejudicial aos operadores e ao ambiente como um todo. Neste caso, existem equipamentos que promovem a captação das partículas de poeira em determinados pontos, a fim de tornar o ambiente mais limpo e saudável. As unidades mais próximas aos perímetros urbanos são mais visadas pela fiscalização do Ministério Público do Trabalho neste quesito.

A limpeza deve ser ponto de capricho do produtor.

Limpeza, capricho e organização na fábrica de ração.
Foto: Confinamento VFL Brasil.
Limpeza, capricho e organização na fábrica de ração.
Foto: Confinamento VFL Brasil.

AG: Existe alguma conclusão que você gostaria de deixar para os leitores que estão acompanhando este artigo?

AP: Como qualquer investimento, as fábricas devem ser bem planejadas. Um bom planejamento pode implantar inclusive, sistemas com gradativo crescimento. À medida que o produtor vai operando o sistema, ele mesmo vai percebendo os limites de produção que pode alcançar, quanto e quando pode projetar de expansão.

Você tem mais perguntas para o Antonio Sérgio Prandini?

Seu e mail para contato é: [email protected]

Ele também pode ser encontrado no LinkedIn como Antonio Sergio Prandini.

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