Gado de Corte: Tudo que o produtor precisa saber

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Foto sistema de produção extensivo gado de corte
Foto: José Maria Matos

Produzir carne de qualidade e em grandes quantidades se tornou um dos principais desafios dos pecuaristas no mundo inteiro. Muitos avanços já foram alcançados devido ao aprimoramento das técnicas de melhoramento genético, manejo e nutrição do gado de corte. Essas técnicas tornaram os animais muito mais eficientes em converter os nutrientes recebidos via dieta em carne. E vem ajudando a pecuária de corte a prosperar em todo o mundo.

O termo gado de corte refere-se à criação de ovinos, caprinos e bovinos com aptidão para a produção de carne. Apesar da ovinocultura e caprinocultura serem atividades importantes, a maior produção ainda é devida à exploração do gado bovino. A bovinocultura de corte é uma atividade difundida e bem estabelecida em todo o mundo. É caracterizada pela criação de bovinos com o objetivo de produzir carne e seus derivados. Existem diversas características importantes que tornaram essa atividade única e responsável pela melhoria dos índices econômicos de diversos países. Além de ser uma fonte importante de proteína animal para a população.

Nesse texto iremos conversar um pouco sobre as principais características dessa atividade. Entender um pouco por que hoje ela é um dos carros chefe da economia de diversos países. E ainda, é uma das grandes esperanças para suprir a necessidade de alimentos para os próximos anos para uma população que cresce a cada dia.

  • Os maiores produtores de gado de corte do mundo
  • A produção de gado de corte no Brasil em números
  • Raças de gado de corte mais utilizadas no Brasil
    • Nelore
    • Tabapuã
    • Brahman
    • Guzerá
  • Afinal, quem é responsável por produzir o gado de corte?
  • O sistema de criação na pecuária de corte é peça chave para produtividade
    • Sistema Extensivo
    • Sistema Semi-Intensivo
    • Sistema Intensivo
  • O manejo é diferenciado em cada fase de produção
    • Cria
    • Recria
    • Terminação
  • Manejo Nutricional e da alimentação
  • Aspectos sanitários
  • Aspectos de bem estar e comportamento animal
  • Adequação das instalações às necessidades dos animais
  • Instrução e treinamento da equipe

Os maiores produtores de gado de corte do mundo

A Índia, o Brasil, a China, os Estados Unidos e a União Europeia detém os maiores rebanhos de bovinos do mundo. Na Índia é esperado que se encontre o maior efetivo de bovinos, em razão da cultura do país. Mas ter rebanhos grandes, nem sempre é sinônimo de rebanhos altamente produtivos e eficientes.

O Brasil, mesmo tendo um rebanho menor que a Índia, aparece o segundo maior produtor de carne do mundo. Segundo o USDA (Departamento de Agricultura Norte Americano) existe uma expectativa de produção de 63 milhões toneladas de carne bovina em 2019, 1% a mais que no ano de 2018. E o Brasil tem um lugar de destaque nesse ranking. As projeções para 2018 mostravam que o país deveria alcançar o número de 232,35 milhões de cabeças de bovinos, com destaque para criação do gado zebuíno. Para 2019 existe esperança de aumento em 3% na produção e 5% nas exportações (USDA, 2018) de carne vermelha.

A produção de gado de corte no Brasil em números

No Brasil 80% do gado de corte são zebuínos.  O sucesso e a expansão desses animais no território nacional se deu principalmente em função da sua adaptação em climas tropicais e fez do país um dos líderes mundiais em produção de carne. A região Centro Oeste, com destaque para o Mato Grosso, detém o maior efetivo de cabeças com cerca de 30 milhões de animais (IBGE, 2016). Apesar disso, a região norte do país merece seu devido destaque, pois nos últimos anos teve um salto bastante grande na produção de carne e hoje representa em torno de 22% do rebanho nacional.

Raças de gado de corte mais utilizadas no Brasil

É possível produzir carne de qualidade e em grandes quantidades de norte a sul do país. Dos estados de São Paulo até o Rio Grande do Sul, a maioria dos animais são de raças taurinas como o Charolês, Angus, Braford e seus cruzamentos com raças zebuínas.

No entanto, a predominância do gado Zebu é incontestável e merece destaque. São animais mais rústicos, o que se traduziu em exigências nutricionais menores e maior resistência a doenças que o gado europeu. As principais raças produzidas no país são:

Nelore

É a raça de gado de corte zebuína mais produzida no Brasil. São animais que se adaptaram muito bem às condições climáticas do país. E também aqueles que mais se investiu dinheiro e pesquisa no melhoramento genético e entendimento de suas exigências nutricionais.

Nelore Gado de Corte
Foto: Miguel Rudes
Nelore Gado de Corte
Foto: Miguel Rudes

Tabapuã

São animais com destaque na produção pecuária em função da sua habilidade materna e alta fertilidade. É a única raça de zebuínos desenvolvida no Brasil. E vem recebendo muita atenção por parte de pecuaristas e pesquisadores nos últimos anos.

Tabapuã Gado de Corte.
Foto: Associação Goiana do Tabapuã.
Tabapuã Gado de Corte.
Foto: Associação Goiana do Tabapuã.

Brahman

São animais que têm excelente conversão alimentar (quilos de carne produzida por quilos de alimento consumido). As fêmeas têm curto intervalo de parto em comparação a outras raças e são ótimas produtoras de leite. O que resulta em bezerros desmamados com bom ganho de peso.

Brahman Gado de Corte.
Foto: Casa Branca Agropastoril.
Brahman Gado de Corte.
Foto: Casa Branca Agropastoril.

Guzerá

São animais de dupla aptidão (corte e leite). Em função dos bezerros terem baixo peso ao nascer, as fêmeas têm facilidade de parto. Além disso, essa raça é a base genética para muitos cruzamentos industrias de gado de corte zebu no país.

Guzerá Gado de Corte
Foto: José Maria Matos
Guzerá Gado de Corte
Foto: José Maria Matos

Afinal, quem é responsável por produzir o gado de corte?

Como falado anteriormente, a produção de carne envolve um sistema bastante complexo e dinâmico que é administrado por um pecuarista. Ele é o responsável por pensar no dia-a-dia da fazenda e tem uma lista grande de tarefas como:

  • motivar os funcionários
  • calcular os custos de produção
  • comprar os insumos
  • avaliar a eficiência dos animais
  • interpretar dados juntamente com os consultores (Zootecnistas, Médicos Veterinários e Agrônomos)
  • avaliar os principais índices zootécnicos e econômicos da propriedade

O papel do pecuarista é fundamental para a cadeia da pecuária de corte.

O sistema de criação na pecuária de corte é peça chave para produtividade

Basicamente existem três sistemas de produção onde os bovinos de corte podem ser alocados para sua exploração.  

Sistema Extensivo

O sistema extensivo é caracterizado pela criação dos animais em grandes extensões de pastagens com poucos insumos, equipamentos e mão de obra. O Brasil se destaca neste quesito, pois em torno de 75% do seu rebanho bovino é produzido nesse sistema. A principal vantagem nisso é o baixo custo de produção. O grande problema é a sazonalidade imposta pelas condições adversas do clima no país. Ou seja, no período das águas existe abundância de alimentos a campo, enquanto que durante a seca a pastagem se torna de baixa qualidade nutricional e escassa, levando os animais a perderem peso e isso aumenta o tempo para o abate e a rentabilidade da atividade. Além disso, o aumento do custo da terra também prejudica a continuidade da atividade extensiva. Pois, o retorno pelo capital total investido piora com o aumento do valor da terra e a baixa produtividade do investimento.

Sistema extensivo de produção gado de corte.
Foto: José Maria Matos.

Sistema Semi-Intensivo

Pode-se aplicar esse sistema para diferentes situações. A mais comum é a terminação dos animais. Assim, bovinos criados a campo recebem um reforço de alimentos no cocho. A suplementação pode ser tanto energética (milho moído ou polpa cítrica, por exemplo) como volumosa (principalmente silagem de milho). Isso irá acelerar o ganho de peso e melhorar a rentabilidade do pecuarista. Outra situação em que o semi-confinamento é bastante utilizado é quando há falta de forragem ou ela tem baixo valor nutritivo, o que acontece em períodos de seca. As dietas utilizadas devem ser formuladas seguindo os mesmos princípios daquelas utilizadas para bovinos confinados.

Foto sistema de produção semi-intensivo gado de corte.
Foto: Rafael Anselmi
Foto sistema de produção semi-intensivo gado de corte.
Foto: Rafael Anselmi

Sistema Intensivo

Esse sistema de criação é considerado o mais moderno e que traz os melhores resultados do ponto de vista de eficiência de produção. Esse sistema é utilizado principalmente para terminação dos animais e resulta em carcaças bem acabadas, com boa deposição de gordura subcutânea e intramuscular. Uma desvantagem desse sistema é o alto custo de implantação e os custos de produção, uma vez que, o sistema é guiado pela compra de insumos como milho e farelo de soja e a reposição de animais. Apesar disso, os altos níveis de produtividade e a oportunidade de abater animais o ano inteiro fez desse sistema um sucesso e ajudou a aumentar a produção de carne vermelha.

É importante falar que, as fases de cria e recria são realizadas em sistemas extensivos e semi-intensivos no Brasil. A terminação pode ser realizada tanto nesses dois sistemas, como em confinamento. O que irá decidir isso é, principalmente o preço do milho, a  potencial de valorização do boi gordo e sua relação com o preço do boi magro no momento que o gado irá entrar no confinamento. Por exemplo, quando o preço da saca de milho cai, isso é um estímulo aos pecuaristas a lotarem seus confinamentos. Do contrário, os animais são terminados a pasto ou em semi-confinamento.

Foto sistema de produção confinamento/intensivo gado de corte.
Foto: Rafael Anselmi.
Foto sistema de produção confinamento/intensivo gado de corte.
Foto: Rafael Anselmi.

O manejo é diferenciado em cada fase de produção

Como comentado anteriormente, o ciclo de produção do gado de corte bovino se divide em cria, recria e terminação. Vamos conversar um pouco sobre cada uma delas.

Cria

Essa fase se alonga do nascimento até a desmama dos bezerros que tem duração de seis a oito meses. As matrizes exercem um papel muito importante, uma vez que, parte dos nutrientes ingeridos pelas crias é o leite produzido pelas suas mães. Os animais podem atingir entre 25 a 50% do seu peso adulto durante esse período e isso é devido à alta eficiência das crias que resultam em ótimas conversões alimentares. O ideal é que esses animais sejam desmamados pesando entre 5,5 e 7 arrobas.

Nessa fase os principais desafios estão em diminuir as taxas de mortalidade que giram em torno de 15%. Isso ocorre em razão da ineficiente cura do umbigo e da colostragem (secreção produzida pela vaca no primeiros dois a três dias após o parto que possui anticorpos, essenciais para o bom desenvolvimento do bezerro) mal realizada. Essa má colostragem, infelizmente, é muitas vezes associada à falta de habilidade materna da mãe, principalmente vacas de primeiro parto.

Cria Gado de Corte.
Foto: Carlos Lopes.
Cria Gado de Corte.
Foto: Carlos Lopes.

Recria

Após os bezerros serem desmamados, os garrotes entram na fase de recria ou crescimento, que irá se estender até a puberdade. Essa fase tem duração média de 12 meses e os animais atingem em torno de 10 a 12 arrobas. O objetivo desse período é explorar ao máximo o potencial genético dos novilhos de forma a obter animais com boa estrutura e carcaças uniformes, é claro, no menor tempo possível. Essa é a fase em que a dieta tem maior influência sobre o desenvolvimento e por isso é necessário utilizar boas estratégias de suplementação para evitar animais adultos com baixos índices produtivos.

Recria Gado de Corte.
Foto: José Maria Matos.
Recria Gado de Corte.
Foto: José Maria Matos.

Terminação

Essa fase também conhecida como engorda é realizada a pasto ou em confinamento. No Brasil, tradicionalmente os animais são acabados no pasto com nenhuma suplementação. Devido à estacionalidade das forrageiras e maiores exigências de mantença para animais mantidos nesse sistema de criação, eles são abatidos mais velhos e têm carcaças menores. Contrário a isso, bovinos terminados em confinamento conseguem melhor acabamento da carcaça (deposição de gordura subcutânea e intra-muscular), em função da dieta de alta energia que recebem. Os bovinos permanecem em média de 80 a 90 dias no confinamento e atingem entre 16 e 18 arrobas.

Terminação Gado de Corte
Foto: José Maria Matos
Terminação Gado de Corte
Foto: José Maria Matos

Os animais em diferentes fases de vida e em diferentes sistemas de criação respondem ao manejo que é desenvolvido sobre os animais. Ou seja, cada fase e sistema têm necessidades diferentes em relação ao balanceamento de dietas e fornecimento de alimentos, aspectos sanitários e bem estar. Sem falar sobre o manejo reprodutivo realizado nas matrizes.

Manejo Nutricional e da alimentação

Os bovinos de corte criados em pastagens são mais exigentes em energia de mantença, uma vez que precisam se deslocar para capturar o alimento do campo. Além disso, as forragens tropicais mais usadas no Brasil têm baixo valor nutritivo, principalmente em energia e proteína. Aliado a estacionalidade das pastagens, levam os bovinos criados a pasto a terem baixos ganhos de peso e maior o tempo até o abate. Esse problema pode ser em parte corrigido quando é lançado mão da suplementação com alimentos energéticos como milho moído e proteicos, como o farelo de soja. Já em confinamento, apesar dos resultados em ganho de peso serem melhores e se ter a oportunidade de obter carcaças mais pesadas e melhores acabadas, existe um grande desafio que é evitar que os animais sofram com doenças metabólicas e também a sazonalidade do preço dos insumos e da reposição dos animais.

Aspectos sanitários

No ciclo de produção do gado de corte, uma atenção especial deve ser dada na utilização de medidas preventivas para evitar a adoecimento dos animais ou até a necessidade de descarte de todo rebanho. Na fase de cria, é importante a correta cura do umbigo e a colostragem. Qualquer doença infectocontagiosa, parasitária ou carencial pode reduzir o desempenho dos animais em todas as fases de vida. Por isso, toda e qualquer fazenda deve respeitar um calendário sanitário de vacinações, vermifugação e controle de ectoparasitas, como moscas e carrapatos.

Aspectos de bem estar e comportamento animal

A Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) recomenda cinco princípios que devem ser atendidos dentro das fazendas para que se possa afirmar que aspectos de bem estar estejam sendo respeitados, são eles: 1) evitar fome, sede ou desnutrição; 2) evitar medo e angústia; 3) evitar desconforto físico e térmico; 4) evitar dor, injúrias e doenças e 5) criar condições para os animais expressarem seu comportamento natural. Essas exigências tendem a aumentar conforme o Brasil aumenta a proporção de animais exportados e atende mercados mais exigentes.

Adequação das instalações às necessidades dos animais

É necessário que todos os locais onde os animais estejam, como currais, baias, pastos, estábulos, se encontrem limpos e na capacidade de estocagem ideal. Todas essas áreas devem ser providas de sombra, que pode ser artificial com o uso de sombrites ou natural a partir do uso de árvores.

Instrução e treinamento da equipe

Essa é uma questão fundamental no sentido de vislumbrar a qualidade da criação do gado de corte. O treinamento de funcionários, independente da sua função dentro da fazenda é importante para o desempenho dos animais e para que se evite acidentes de trabalho. Pessoas engajadas são responsáveis pelo sucesso da fazenda. Para se trabalhar com animais é necessário entender seu comportamento e, através do manejo racional, tentar suprir as necessidades em expressar seus comportamentos naturais.

A indústria do gado de corte é bastante complexa e exige profissionais capacitados para estar à frente dos rebanhos. Com o auxílio de novas técnicas de reprodução, melhoramento genético, nutrição e otimização das instalações foi possível aumentar a eficiência da produção de carne, bem como a melhoria de aspectos de qualidade. Novos desafios ainda precisam ser vencidos, mas a necessidade de se aumentar a produção de alimentos faz com que a cada dia, novas tecnologias sejam lançadas. Por isso, ainda é preciso muito estudo e muita dedicação para melhorar os índices de produtividade do gado de corte no Brasil e no mundo.

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