Conversa com especialista: produção de volumoso por meio da fenação

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Visão geral da produção de pré-secado de azevém. Foto: Estância Santa Marta.
Visão geral da produção de pré-secado de azevém. Foto: Estância Santa Marta.

Para uma melhor e maior produção de gado, a utilização de alimentos ricos em nutrientes é essencial. Dentre os alimentos volumosos mais utilizados, o feno se destaca.

Apesar da vasta utilização, é comum ter diversas dúvidas sobre a fenação. Dentre elas a produção, armazenamento e importância nutricional.

Portanto, para findar com estas e outras dúvidas frequentes, a Agromove conversou com o especialista Felipe Moura, que nos explicou melhor sobre a importância deste método.

Introdução

Felipe Moura é engenheiro agrônomo formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ-USP) e mestre em ciência animal e pastagem também pela ESALQ-USP.

É um dos profissionais pioneiros em seleção assistida por marcador molecular e especialista em forragem, irrigação de pastos nativos, programas de melhoramento genético e seleção por marcadores moleculares.

Hoje, Felipe Moura é pecuarista, trabalha com pastagem e gestão em fazendas, é vice presidente de marketing da Associação Brasileira de Angus e idealizador do curso online de pastagem “Pasto Online.

Além disso, possui diversos trabalhos em parceria com instituições de pesquisa como ESALQ, UFRGS, UFSM e URCAMP.

Questões

Agromove: Qual a principal função da produção de feno para a pecuária no Brasil?

Felipe Moura: Não só para a pecuária nacional, mas em qualquer situação, existe uma grande variação na de produção de forragem. Isso significa que não existe uma produção de matéria seca constante ao longo do ano. Em cada época, estação, existem plantas forrageiras específicas, mas que de forma análoga, não mantêm a produção diária fixa. Tanto a quantidade quanto a qualidade variam. A isso damos o nome de “Estacionalidade de produção de forragem”. Ou seja, esses “dentes” de produção geram uma necessidade de armazenamento de forragem de uma época de maior acúmulo de matéria seca para ser alocada em outra de menor produção. Isso é o fundamento de se ajustar oferta de forragem com a demanda exercida pelos animais. O feno ou o pré-secado, funcionam exatamente para suprir esse vazio forrageiro e poder equalizar esse binômio entre produção e consumo.

Pré secado.
Foto: Estância Santa Marta.
Pré secado.
Foto: Estância Santa Marta.

A: Existe alguma etapa no processo que exige maior atenção?

FM: Não. Todas as etapas são importantes e têm uma sinergia e sequência entre elas. Se uma etapa for malfeita, as outras ficam comprometidas. Todo o processo exige conhecimento, eficiência e rendimento operacional, mas nunca esquecendo que o processo como um todo deve gerar um armazenamento com a melhor qualidade possível.

Enleiramento. Aqui a regulagem é importante para que o máximo de forragem seja enleirada, mas com o mínimo de terra.
Foto: Estância Santa Marta.
Enleiramento. Aqui a regulagem é importante para que o máximo de forragem seja enleirada, mas com o mínimo de terra.
Foto: Estância Santa Marta.
Processo de enfardamento.

Ao enfardar, a leira deve ser robusta, e não ultrapassar a largura de recolhimento. Nessa operação, nosso cuidado com o teor exato de matéria-seca do material colhido.

Posted by FENO & PUNTO on Friday, April 26, 2019
Processo de enfardamento. Estância Santa Marta.

A: Quais as vantagens, para o gado, da utilização do feno?

FM: Além do ajuste entre oferta e demanda, o ajuste na qualidade e quantidade da fibra na dieta atua como um dos grandes determinantes de desempenho. No caso de feno desidratado, a fibra longa, ajuda muito no processo de ruminação e pode estabilizar a dieta como um todo. Para animais que, por exemplo, estão pastejando gramíneas de inverno, onde o teor de matéria seca é baixo e a taxa de passagem é muito elevada, pode-se usar essa fibra longa do feno para equilibrar esse descompasso.

Para dietas com pré-secado, existe uma disponibilidade rápida de nutrientes e da digestibilidade da fibra, o que melhora a proteína microbiana. A diferença básica entre elas, é o teor de matéria seca. No caso do feno para fecharmos uma dieta a quantidade ofertada em peso é menor do que a de pré-secado, mas ambas podem fechar o mesmo consumo de matéria seca. Sem contar que estrategicamente, os animais podem passar por um período de restrição com mais facilidade. É de uma certa forma, uma estratégia de colheita e transferência de alimentos, para manutenção de desempenho.

A: E para o produtor?

FM: Para o produtor, o ajuste desse excedente de forragem para uma época de falta. Como podem contar com esse fornecimento externo, o uso das áreas deles no verão, por exemplo, pode ser potencializada, uma vez que não vão ter que destinar áreas próprias para conservação de forragem. Isso irá aumentar a capacidade de suporte no verão (nesse exemplo específico) e potencializar a produção naquela época.

A: Podemos fornecer à vontade para o gado ou temos um limite?

FM: Não existe esse limite. Os animais têm um consumo na ordem de 2,3 a 2,6% do peso vivo em matéria seca. Contudo, se atrelarmos a outro tipo de suplemento podem ter um resultado melhor. Forragens de pior qualidade estocadas, normalmente não conseguem garantir o mínimo de proteína e nem de energia no rúmen para gerar ganho. Nesse caso, o uso de uma fonte externa de PB vai ajudar. O que precisa ficar claro é que essa técnica pode ser feita em qualquer estágio de desenvolvimento da planta. Muitos usam a técnica para fenar praticamente palha; ou seja, de qualidade baixíssima. No tocante ao nosso projeto, somente fazemos armazenamento (feno ou pré-secado) com a planta sempre no seu melhor ponto nutricional. Isso nos gera um custo operacional maior, mas o que acaba sendo compensado pela qualidade do material e obviamente, no desempenho dos animais.

Segadora condicionadora John Deere. Rendimento e qualidade no corte diminuindo o tempo de secagem no campo.
Foto: Estância Santa Marta.
Segadora condicionadora John Deere. Rendimento e qualidade no corte diminuindo o tempo de secagem no campo.
Foto: Estância Santa Marta.

A: Existem plantas específicas a serem utilizadas na produção de feno? Quais?

FM: Algumas plantas forrageiras são mais adequadas a produção de feno. Quando cortamos o pasto, a extração de biomassa é muito grande. Sem muita área foliar remanescente, a rebrota exige muita energia pelas plantas. Essa energia armazenada nas raízes na forma de carboidratos, é usada pela planta nesse momento. Plantas que possuem rizomas e tem uma capacidade muito maior de rebrota do que as que não possuem esse tipo de estrutura radicular.

Outro aspecto importante é quanto a localização do ponto de crescimento de cada espécie. Plantas eretas, têm o seu meristema apical localizado longe do solo. Quando a planta é ceifada, esse ponto de crescimento é arrancado. Isso gera uma ação imediata de ativação de gemas basais e a planta passa a perfilhar. Contudo esse processo em plantas com esse tipo de estrutura, demora mais; o aumento das taxas de fotossíntese é mais lento e consequentemente, a recomposição da área foliar. Plantas semi-prostradas, ficam no meio termo entre as eretas e as prostradas. De qualquer forma, quando cortamos a forragem, é importante então que se deixe um mínimo ótimo de área foliar. É desse índice de área foliar, que vai ocorrer a determinação de um aumento da interceptação luminosa. Assim, o ritmo de rebrota será maior e a recomposição da parte aérea, portanto, é feita em um menor tempo.

A: Quais os principais custos para este processo?

FM: O operacional pesa bastante. Mas antes disso, temos que avaliar se a pastagem é perene ou anual. Isso é importante porque as perenes têm um custo de implementação alto, mas diluído ao longo dos anos. Já as anuais, têm um custo de formação que é carregado somente para aquela safra. No caso de azevém no inverno, por exemplo na região sul, é isso que acontece. Mas voltando ao raciocínio, o operacional tem grande impacto. Especialmente se estivermos trabalhando com pré-secado, onde temos que adicionar os custos de tela e do filme. Isso pode chegar a 27% do custo somente pela parte operacional e cerca de 29% para a rede e filme, ou plástico.

A: Como deve ser feito o processo de fenação para que o produto tenha máxima qualidade?

FM: Sempre colher a planta no melhor ponto de produção. As pesquisas têm mostrado que o ótimo de manejo do pasto está sempre quando o dossel intercepta 95% da luz que incide no relvado. Esse mesmo conceito usamos como metodologia para corte para feno. Em outras palavras, estamos sempre cortando a forragem no ponto ótimo de produção e qualidade.

O outro aspecto refere-se ao tempo de execução. No caso de feno seco, a janela entre corte e enfardamento deve ser com elevada luminosidade e temperatura. O tempo de secagem, quanto menor melhor o processo de conservação. No tocante a qualidade, se o tempo exceder, e passarmos do ponto, existe um desprendimento grande das folhas do talo da planta, diminuindo assim o valor nutricional da forragem.

Quando estamos tratando de pré-secado, esses mesmos conceitos são válidos. Porém, a vantagem desse processo é que a conservação ocorre por fermentação anaeróbica. Ou seja, o plástico que envolve o fardo, tem como objetivo criar esse ambiente propício à propagação de bactérias anaeróbicas que exercem esse processo de fermentação. A compactação nesse caso é importantíssima, uma vez que quanto menos ar, melhor a produção de compostos que garantem a qualidade do material. Devemos criar um ambiente favorável para a produção de ácido lático e propiônico. No início do processo existe a produção de ácido acético que tem a sua importância para redução do pH, mas depois não pode predominar.

Agora uma coisa é regra: independente do processo que se faça e por melhor que se faça, nunca se melhora a forragem cortada pelo armazenamento. Na melhor das hipóteses, se mantêm a qualidade de campo e é nesse quesito que focamos a nossa produção.

A: Quais são as características de um bom feno?

FM: Algumas dicas importantes na hora de avaliar o material enfenado:

  • Coloração
  • Cheiro
  • Ausência de fungos
  • Sem pontos com temperatura elevada
  • Qualidade do plástico (quando pré-secado)
  • Manutenção da compactação do material armazenado
  • Análise bromatológica.

A: Como e por quanto tempo podemos estocar? Perde-se nutrientes ao estocarmos por muito tempo?

FM: Depende muito de como foi feito. O tempo de estocagem inicia-se já no início da confecção do material. Um processo de fenação bem feito do começo ao fim, tende a dar uma melhor estabilização do material e de suas características organolépticas. O pré-secado tende a ter um “tempo de prateleira” maior, já que tem uma camada a mais de proteção. No caso do feno desidratado, se estiver estocado ao ar livre, perde uma pequena casca por fora, mas por dentro sempre se mantêm bem. A posição de como ficar armazenado também pode influenciar. Os pré-secados, normalmente se mantêm em uma melhor condição quando colocados e empilhados em pé. No caso do desidratado, se armazenado ao ar livre, sem proteção, se colocados em pé, isso vai gerar uma possibilidade de infiltração de água e o material pode se deteriorar.

Se bem armazenado, já vi materiais estocados por quase dois anos e bem conservados.

A: Qual a época mais adequada para realizar a fenação?

FM: Depende de que planta forrageira estamos falando. Espécies de verão vão produzir mais nessa época e as de inverno da mesma forma, mas no período adequado ao crescimento delas. O que não varia é sempre manter em mente a confecção do material sempre no ótimo de crescimento e de qualidade.

A: Existem empresas especializadas apenas na produção e distribuição de feno?

FM: Sim. Nós mesmos temos um braço da empresa somente para produção e comercialização para outros produtores. Esse mercado vem se especializando em produção de feno como um produto comercial. Algumas muito profissionais, realizando todo o processo. Mas uma modalidade que vem crescendo no país é a prestação de serviços. No Paraná isso é muito difundido.

A: Quais os primeiros passos para quem quer começar a produção de feno na sua propriedade? Qual a área mínima e equipamentos necessários?

FM: Primeiro verificar se através do manejo do pastejo essa realmente será uma técnica e investimento necessários. Depois, se entende como que a distribuição da produção de forragem acontece. Se não colher o pasto produzido, seja com os animais ou com as máquinas, o prejuízo é certo.

A área mínima depende muito do tipo de exploração (feno ou pré-secado), do tipo de fardo (se quadrado ou redondo) e do tipo de planta forrageira. Esse tema requer mais tempo para desenvolvermos um raciocínio. Mas regra, para isso, não existe.

A: Existe alguma mensagem ou conclusão que você quer deixar para o produtor que está lendo a sua entrevista?

FM: Que de uma vez por todas se entenda que a oferta e demanda é um binômio dos mais importantes dentro da fazenda. Hoje existem alternativas e técnicas a todos os modelos de produção. Isso levou a criação de um mercado de compra e venda de forragem, o que pode sempre ser analisado como um item de investimento das fazendas.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Tenho uma propriedade de 150hq,crio gado,Mas é desordenado,vaca cm bezerros ,entre machos em fase de crescimento etc,o manejo é desordenado,o pasto ñ é tratado,o gado é de diversas raças,entre elas de maior quantidade,”as pés duro “Como são conhecidos aqui na região,trabalho em torno de ñ mas de 120 cabeças,Pois então,onde eu sei q existe meios de melhorar a qualidade do gado,do pasto é tbm da administração de um todo,gostaria de saber se alguém pode me ajudar a melhorar esse contexto

    • Oi José, além do conteúdo de pastagem do Felipe Moura, que eu recomendo, também pode acessar nossos conteúdos administrativos na aba de produtos no topo desta pagina. Sugiro começar pelos simuladores de pasto para ter uma ideia do potencial de rentabilidade do seu negócio. Se desejar seguir em frente, faça o curso Estratégia 10x para entender como pode aumentar a rentabilidade do seu negócio.

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  2. JOS´E CLAUDIO. Voce precisa de uma reflexão sobre o seu negócio. Tem o que mais importa que é a terra. A base forrageira é o que vai nortear o seu negocio. Sem termos uma completa analise da produção de forragem da sua fazenda, tudo pode acabar sendo tentativa e erro; apagar fogo e investir no errado. A primeira etapa é definir o seu sistema de produção: depois diagnosticar a sua fazenda. O que fazemos é ajudar a prospectar o seu negocio antes de gastar o primeiro real! o que ja importa muito é voce estar em busca de conhecimento: temos um conteúdo show para voce que certamente vai te ajudar muito. Clic nesse link, assista ao video e veja se conecta contigo. Se sim, inscreva-se no pasto online: http://www.felipemoura.me/pasto-online
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