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Dinâmica do Boro no Sistema Solo-Planta-Ambiente

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Trator pulverizando uma lavoura

Introdução

A agricultura é a responsável pela alimentação mundial, sendo papel dos agrônomos desenvolver a melhor forma de produzir alimento de maneira sustentável e que não gere problemas ainda maiores.

Os desafios para nosso objetivo são infindos, visto as adversidades enfrentadas quanto ao clima, doenças e pragas que muitas vezes afetam toda a produção, reduzindo o fornecimento de sustentos.

O boro é um dos nutrientes essenciais para o desenvolvimento das plantas e que, quando em baixa disponibilidade, impedem o alcance da produtividade desejada. Assim sendo, buscamos entender melhor como este nutriente se comporta no sistema solo-planta e como podemos otimizar sua utilização pelas plantas.

Características gerais

O boro é um micronutriente semimetálico que possui um maior número de orbitais disponíveis para ligação, grande potencial de se ligar a outros elementos e menor número de elétrons. Devido a essas características, é encontrado ligado ao oxigênio na maioria das vezes, formando compostos covalentes como B2O3 (SOARES et al., 2005).

O micronutriente em questão é apontado como um dos que apresentam maiores índices de deficiência nas culturas. Principalmente no Brasil, onde os solos são muito intemperizados e com baixos teores de matéria orgânica, a falta deste nutriente pode ser bem acentuada e visível através das plantas (PRADO et al., 2006).

Este nutriente se apresenta como ânion e sua disponibilidade está atrelada a fatores como pH, material orgânico, tipo e textura do solo. A forma que as plantas o absorvem é H3BO3, o chamado ácido bórico (LABORSOLO, 2013).

SOLO

Dinâmica do solo

Disponível como ácido bórico, o boro pode ser encontrado não dissociado no solo, obtendo carga neutra e por isso se caracteriza por ser móvel no meio. Quando em sua forma de ânion (B(OH)4) pode ser adsorvido principalmente pelos óxidos e hidróxidos de ferro e alumínio (SOARES et al., 2005).

Assim como o cobre, o boro possui adsorção específica, com estreitas ligações através de complexos de esfera interna, tipo de ligação citada anteriormente. Por outro lado, a caulinita, mesmo sendo uma argila 1:1, apresenta hidróxidos de alumínio em sua composição, possuindo afinidade com o boro e podendo retê-lo (SOARES et al., 2005; ROSOLEM; BÍSCARO, 2007)

A adsorção de boro descrita é coordenada por dois fatores principalmente: pH do solo e concentração de B no meio. Catani et al. (1971), demonstraram que a adsorção de boro pelos oxi hidróxidos de ferro e alumínio tendem a ser mais expressivas conforme o pH e a concentração do nutriente em questão aumentam, o que pode levar a redução das perdas por lixiviação.

Perdas

Por possuir carga neutra na forma de ácido bórico, o micronutriente em questão pode ser facilmente lixiviado (SOARES et al., 2005).

Os fatores ambientais e a fonte de B que é adicionada ao solo podem influenciar tanto na disponibilização quanto na perda do nutriente. Por exemplo, fontes mais solúveis de B tendem a disponibilizar mais rapidamente o nutriente. Sendo assim, quando aplicadas em excesso, podem apresentar desperdício, pois a lixiviação do boro disponibilizado é mais acentuada, sendo que chuvas e irrigação nestas condições agravam o quadro (FERRANDO; ZAMALVIDE, 2012).

Por sua vez, fontes menos solúveis e com liberação lenta do nutriente caracterizam uma forma de disponibilização gradual, reduzindo a possibilidade de lixiviação, diminuindo perdas e aumentando a eficiência da adubação. Essas condições devem ser levadas em conta na decisão acerca de qual fonte utilizar de acordo com a necessidade da cultura (FERRANDO; ZAMALVIDE, 2012).

Ademais, solos com baixo teor de matéria orgânica e de textura arenosa podem apresentar maiores níveis de deficiência de boro (ROSOLEM; BÍSCARO, 2007).

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PLANTA

Forma absorvida

As raízes aproveitam o boro do solo, principalmente na forma de ácido bórico não dissociado, sendo essa a forma mais permeável nas células da planta, absorvida tanto por transporte ativo quanto por difusão passiva (Kirkby, 1991). Tem-se também o íon borato, forma menos comum de aproveitamento. Dannel et. al. (1997), afirma que a ascensão do nutriente na planta se dá pela mudança do gradiente de concentração das células, quando este está em menores quantidades. O B, uma vez dentro da planta, tem grande facilidade de formar compostos como polissacarídeos, álcoois etc. (Hu & Brown, 1997).

Redistribuição

O boro é considerado imóvel no floema, com a exceção de plantas que formam complexos polióis como o manitol, dulcitol e sorbitol, capazes de complexar o boro e, só assim, torná-lo móvel no floema, como é o caso das nectarinas e das macieiras (YAMADA, 2000). Logo, é necessário que este esteja disponível no solo para o pleno desenvolvimento das raízes de um determinado local, em condições em que as plantas não possuam mobilidade de boro em seu floema.

Função na planta

O boro é requisitado em vários processos fisiológicos da planta, sendo estes afetados pela sua deficiência, como a lignificação, síntese da parede celular e sua estruturação, metabolismo de carboidratos, AIA e de RNA, respiração, integridade da membrana plasmática, florescimento e frutificação e transporte de açúcares. Entretanto, dentre estas funções, duas são consideradas as principais como atuação do nutriente na planta, sendo elas a síntese da parede celular e a manutenção da integridade da membrana plasmática (CAKMAK et. al., 1997).

O boro possui papel essencial no transporte de carboidratos por ser um formador de pectinas da lamela média das plantas. Sua função na frutificação está ligada com a formação da enzima calose, responsável por promover o crescimento do tubo polínico e consequentemente, favorecer o desenvolvimento das sementes. Casos de morte apical por falta do nutriente estão relacionados a inibição da ATPase e da absorção de outros nutrientes além do boro, causando insuficiência na integridade da membrana plasmática e menor síntese da parede celular, processos o qual o boro está intimamente ligado (YAMADA, 2000).

Cakmak (1997), demonstrou que as folhas de plantas deficientes em boro apresentaram um grau muito mais alto de efluxo e vazamento se comparadas àquelas que eram bem nutridas. Dentro destes efluxos e vazamentos, estão os de potássio, sacarose, aminoácidos e fenólicos, ou seja, a deficiência de boro pode causar uma menor eficiência na adubação potássica, fazendo com que ocorra a deficiência deste na planta quando o boro está drasticamente carente.

Assim como o boro atua na absorção de K pela planta, POWER & WOODS (1997) demonstraram que o P necessita do boro para ser passível de ser translocado entre as membranas das células. Logo, plantas também podem apresentar sintomas de deficiência de P, quando na verdade, existe a carência de B.

Cakmak et. al. (1997), explica que a deficiência de boro pode ser rapidamente restituída se o nutriente for aplicado nas folhas da planta, sugerindo que o B estabiliza a estrutura do plasma das células modificando compostos como glicoproteínas e glicolipídios, permitindo a reestruturação de canais enzimáticos, deixando-os em conformação com a membrana.

Sintomas de toxidez e deficiência

O boro é provavelmente o micronutriente mais importante para a obtenção de lavouras de alta qualidade. Os sintomas de deficiência de boro nas plantas estão diretamente ligados ao fato de que sua mobilidade é reduzida no floema, sendo que o crescimento retardado ou anormal da gema apical é o primeiro sintoma característico de sua deficiência. Por seguinte, as folhas mais jovens começam a se encarquilhar, adquirindo uma cor verde escura e se tornando desuniformes (Kirkby, 2001).

Figura 1 - Deficiência de boro em cafeeiro. Fonte: Disponível em: https://rehagro.com.br/blog/sintomas-de-deficiencias.
Figura 1 – Deficiência de boro em cafeeiro. Fonte: Disponível em: https://rehagro.com.br/blog/sintomas-de-deficiencias.

A toxidez do elemento não é normalmente observada em solos agrícolas, ocorrendo apenas em casos de doses altas de fertilizantes minerais. Os sintomas de toxidez por boro estão relacionados a clorose e necrose das folhas, ou seja, a queima destas, mais observadas nas pontas e bordas das folhas mais velhas da planta (LIMA, 2007).

Conclusão

Tendo em vista todos os benefícios e utilidades do boro na produção agrícola, torna-se clara a necessidade de um manejo eficiente e que supra as exigências das culturas em questão. Assim, a difusão do conhecimento técnico-científico acerca da dinâmica do B e sobre como as condições edafoclimáticas afetam sua disponibilidade para as plantas são fatores essenciais para a melhora na produtividade agrícola e no desenvolvimento do setor agropecuário no Brasil e no mundo.

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Referências

CAKMAK, I., and Romheld, V. Boron deficiency induced impairment of cellular functions in plants. Plant and Soil 193, 71-83, 1997

CATANI, R. A.; ALCARDE, J. C.; KROLL, F. M. A ADSORÇÃO DE BORO PELO SOLO. Anais da E.S.A. “Luiz de Queiroz”, Piracicaba, v. 28, p. 189-1198, 03 dez. 1971. Anal. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/aesalq/article/view/38949/41833. Acesso em: 28 jul. 2020.

FERRANDO, Marcelo Gabriel; ZAMALVIDE, José Pedro. Aplicación de boro en eucalipto: comparación de fuentes. Rev. Árvore, Viçosa, v. 36, n. 6, p. 1191-1197, dez. 2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-67622012000600020&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 29 jul. 2020. http://dx.doi.org/10.1590/S0100-67622012000600020.

DANNEL, F. Effect of pH and boron concentration in the nutrient solution on translocation of boron in the xylem of sunflower. In: Boron in soil and plants. Kluwer Academic Publishers, Dordrecht, p; 183-186, 1997.

HU. H. and Brown, P. H. Absorption of boron by plants. Plant and Soil 193, 49-58, 1997.

LABORSOLO. Micronutrientes: conhecendo o Boro. 2013. Disponível em: https://laborsolo.com.br/analise-quimica-de-solo/micronutrientes-conhecendo-o-boro. Acesso em: 28 jul. 2020.

LIMA, Júlio César Patrício de Souza et al. Níveis críticos e tóxicos de boro em solos de Pernambuco determinados em casa de vegetação. Revista Brasileira de Ciência do Solo, v. 31, n. 1, p. 73-79, 2007.

PRADO, Renato de Melo; NATALE, William; ROZANE, Danilo Eduardo. Níveis críticos de boro no solo e na planta para cultivo de mudas de maracujazeiro-amarelo. Rev. Bras. Frutic., Jaboticabal, v. 28, n. 2, p. 305-309, Ago. 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-29452006000200034&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 29 jul. 2020. https://doi.org/10.1590/S0100-29452006000200034.

ROSOLEM, Ciro Antonio; BÍSCARO, Thaís. Adsorção e lixiviação de boro em Latossolo Vermelho-Amarelo. Pesquisa Agropecuária Brasileira, [S.L.], v. 42, n. 10, p. 1473-1478, out. 2007. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/s0100-204×2007001000015. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-204X2007001000015&script=sci_arttext. Acesso em: 29 jul. 2020.

SOARES, Marcio Roberto et al. Parâmetros termodinâmicos da reação de adsorção de boro em solos tropicais altamente intemperizados. Química Nova, [S.L.], v. 28, n. 6, p. 1014-1022, dez. 2005. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/s0100-40422005000600016. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-40422005000600016&script=sci_abstract&tlng=es. Acesso em: 29 jul. 2020.

YAMADA, Tsuioshi. Boro: será que estamos aplicando a dose suficiente para o adequado desenvolvimento das plantas. Informações Agronômicas, v. 90, p. 1-5, 2000.

2 COMENTÁRIOS

  1. Moro na região Sul, clima temperado, serra, 4 estações bem definidas, vazios forrageiros outonal e primaveril, como faço para ter pasto 365 dias do ano???? Quais forrageiras perenes de verão, inverno são indicadas???? Existe forrageiras de inverno que podem ser cultivavas no início de março, forrageiras precoces, e outra mais tarde, de ciclo longo, que floresça em novembro, para resolver o vazio forrageiros da primavera????

    • Olá Ademar, tudo bem?

      Toda forragem possui o que chamamos de estacionalidade de produção, ou seja, são afetadas pelo duração do dia, temperatura, disponibilidade de agua e outras condições que afetam a produtividade da planta. Estas condições variam de acordo com as estações do ano e portanto todas as forragens irão sofrer com estas variações.
      A sugestão é utilizar plantas forrageiras mais adaptadas às condições climáticas da sua região. Além disto, você deve reservar uma área da fazenda para produzir forragem e eventualmente estocá-la através de processos como vedação de pastagens, fenação ou silagem. A melhor variedade e o melhor sistema dependem das condições edafo-climáticas da sua propriedade. Ou seja, precisa-se entender não só o clima, mas o solo, o tipo de sistema de pastejo que utiliza, a fertilidade do solo, etc.

      Procure em nosso site por estas técnicas de silagem, vedação e pastejo rotacionado e encontrará diversos assuntos.

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