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Engorda: 7 principais entraves

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Animais alimentando-se de ração em dieta balanceada. Fonte: Rogério Domingues.
Animais alimentando-se de ração em dieta balanceada. Fonte: Rogério Domingues.

A engorda é a fase final da pecuária de corte, e por muitos, considerada a mais importante. Também exige cuidados e atenção como nas outras fases, explicadas nos textos de cria e recria.

Neste estágio o boi tem como principal objetivo alcançar o peso final adequado o mais rápido, eficiente e melhor possível.

Mas é sabido que esta época possui diversos entraves, principalmente quanto aos valores a serem considerados, tanto para o custo, quanto para o lucro.

Para esclarecer melhor a fase de engorda, a Agromove entrevistou o especialista Rogério Domingues. O Rogério já foi entrevistado em “Conversa com especialista: vedação de pastagem para reservar alimento para a seca”.

Introdução

Rogério Fernandes Domingues é formado em 1998, pela ESALQ-USP, no curso de Engenharia Agronômica, especialista em Nutrição Animal e Pastagens em 2003 e MBA em Agronegócios pela FGV em 2010. Rogério iniciou seus trabalhos com pecuária e produção animal durante o período de sua graduação, estagiando no Clube de Práticas Zootécnicas – CPZ do Departamento de Zootecnia até sua formação. No ano de 1999, passou a trabalhar com a empresa Parmalat no Departamento de Assistência Técnica ao Produtor, sendo responsável pela região norte do Estado de SP e posteriormente, pela região da cidade de Jundiaí. Em 2000, iniciou seus trabalhos com a parte de formação de pastagens, semiconfinamento e produção de silagem no Estado do MT. E ao final do ano de 2001, passou a atuar no MS, nas propriedades da Família Misrahi, trabalhando na reestruturação das unidades produtoras que exploravam a pecuária de corte.

Após realizar a pós-graduação, Rogério foi contratado pelo grupo Vilela de Queiroz, em Barretos, a partir da indicação do Engenheiro Agrônomo e amigo Gustavo Ubida, tornando-se responsável por toda a parte técnica e planejamento agrícola e da atividade pecuária da mesma, em Fazendas em GO, MT, RO, PA e TO. Em 2012, no norte de Minas, região de Montes Claros, assumiu um grupo de fazendas como responsável técnico e gerencial em uma pecuária de ciclo completo, ou seja, cria, recria, engorda em confinamento, além de agricultura irrigada. A partir do ano de 2014, passou a trabalhar com assessoria e gestão-integrada de diversas fazendas, nos Estados de SP, MS, MT e GO, participando de todas as etapas de gestão e planejamento operacional-financeiro das atividades agrícolas e pecuária destas propriedades. Outra atividade realizada é a avaliação e análise de viabilidade (projetos) de sistemas de produção envolvendo agricultura, pecuária e recentemente, a integração entre as duas atividades.

Questões

Agromove: Como o sistema de engorda pode ser melhor descrito?

Rogério Domingues: As etapas de produção da pecuária de corte, normalmente são divididas nos segmentos de cria, recria e engorda (ou terminação); esses segmentos podem estar isolados ou mesmo combinados caracterizando cada sistema de produção de bovinos de corte.

A terminação, consiste em alcançar o peso e o acabamento ideal da carcaça entregue à indústria, em um período mais curto do que quando comparado aos sistemas de cria e recria. Essa etapa é caracterizada pelo aumento do tecido muscular e tecido adiposo, período que, do ponto de vista biológico é menos eficiente do que os observados nas fases de cria e recria.

Nessa fase, o requerimento energético para deposição de um quilo de tecido adiposo é maior quando comparado ao tecido muscular. Como as pastagens não são capazes de suprir elevadas exigências energéticas, surge nesse contexto, como boa opção, o confinamento (total ou à pasto), prática que permite através de formulação de dietas com maiores teores de energia e menor ingestão de fibras, o maior consumo de energia, concomitantemente a redução da energia de manutenção gerada pelo caminhamento, na busca/seleção das pastagens ofertadas, ou pela busca de pontos de aguadas, dos animais sob pastejo.

Em resumo, o confinamento busca reduzir o custo energético de manutenção do animal sob pastejo, levando até ele uma dieta de alto teor energético, a qual é transformada em carcaça (carne + gordura + osso), com padrões de qualidade (maciez, marmoreio e suculência) que atenda a crescente demanda de um mercado cada vez mais exigente (interno ou externo); e do ponto de vista de negócio, com valor da arroba produzida, capaz de deixar uma boa margem de contribuição, comparado ao valor de venda da arroba.

Animais alimentando-se de ração em dieta balanceada. Fase Engorda. Fonte: Rogério Domingues.
Animais alimentando-se de ração em dieta balanceada. Fonte: Rogério Domingues.

AG: Quais são os 7 principais entraves desta fase? Descreva cada um deles.

RD: O Confinamento é, na minha leitura, a etapa que mais exige atenção em função de ser um ciclo curto e de elevado volume de recursos empregados (boi magro + alimentação). São muitos os fatores que podem impactar no resultado econômico, mas dentre eles, gostaria de ressaltar:

Planejamento Mercadológico: compra de insumos, em momentos de menor preço de mercado (aqui vale ressaltar a atenção para as ferramentas de análise dos ciclos mercado, com preços e oscilações que abrem as oportunidades de compra de grãos e farelos); esse aspecto é fundamental para que o confinamento tenha viabilidade (custo de diárias ou de arroba produzida). Isso vale também para a compra de boi magro, quando o produtor é apenas confinador. Comprar de forma correta e eficiente é a condição de suma importância para a rentabilidade da operação (boi magro compõe cerca de 75% no custo na condição de compra + engorda).

Projeto de Estruturas e Instalações: a começar pela localização do empreendimento. É importante que esteja em uma região com alta disponibilidade de alimentos para comercialização, principalmente quando o empreendimento não possui áreas agrícolas e depende da compra dos alimentos a serem utilizados.

Um bom projeto deve evitar locais próximos a córregos ou rios, diminuindo assim o impacto ambiental; evitar áreas com vento canalizado, de modo a evitar problemas com poeira e mau odor a moradores da fazenda (ou de bairros/cidades próximos); escolher áreas bem drenadas, que garantam um piso seco (terrenos de textura média-arenosa são preferíveis) e, se for possível, próximo de redes de energia elétrica.

É de muita relevância que o projeto atenda alguns pré-requisitos, como no caso dos currais de engorda, que devem ser concebidos em terrenos de inclinação próxima a 3%, para que facilite o escoamento de condução de dejetos. O curral de manejo deve ser concebido dentro dos modernos padrões de manejo racional e rápido fluxo para atender os processos de pesagem, sanidade e coleta de informações e/ou embarques.

A fábrica de ração, se possível, ser concebida com mecanismos de automação; que tenha capacidade de armazenar quantidades satisfatórias de alimentos; rápido fluxo de movimentação dos ingredientes para os boxes de armazenamento na recepção de matérias primas ou para a composição e mistura das dietas a serem ofertadas (preenchimento das batidas seja nos caminhões ou em misturadoras estacionárias). Também é importante levar em consideração o local de armazenagem de alimentos (grãos e volumosos), possuir barracões para as máquinas e equipamentos; e estrutura de coleta, armazenamento e destinação do esterco produzido (sólido ou líquido).

Visão geral do confinamento de gado. Engorda ou Terminação. Fonte: Rogério Domingues.
Visão geral do confinamento de gado. Fonte: Rogério Domingues.

Plano Nutricional bem elaborado: nesse tópico podemos destacar:

Formulação: uma dieta para a obtenção do máximo lucro é o principal objetivo de um bom plano nutricional. Utilizar os alimentos que têm boa oferta na região, ou mesmo de alimentos alternativos ou subprodutos/resíduos da agroindústria, podem contribuir com a redução de custo da dieta.

É de fundamental importância, visto que o manejo alimentar dos bovinos confinados é considerado o fator de maior impacto no custo final da produção, uma vez que representa cerca de 70% do custo total. Assim, se faz necessária a adoção de técnicas que busquem maior eficiência biológica (como uso de aditivos e promotores de manipulação de flora ruminal), e do manejo nutricional, que tem desde as metas de compras com a redução de custos na aquisição e transporte, até armazenamento e distribuição do mesmo na forma da dieta.

O exemplo prático do impacto do custo de uma dieta, pode ser observado quando é possível reduzir em apenas 5% o custo, ou seja em um ciclo com animais de peso médio 465 kg (peso inicial de 390 kg ou [email protected] e com abate pesando 540 kg ou [email protected], considerando um rendimento de carcaça próximo a 56%); e com consumo médio de 2,30% do peso vivo, por um período de 95 dias de confinamento e custo de matéria seca da dieta de 0,650/kg, teríamos uma economia de R$ 165.000,0 para um confinamento de 5.000 cabeças.

Animal alimentando-se de ração. Engorda ou Terminação. Fonte: Rogério Domingues.
Animal alimentando-se de ração. Fonte: Rogério Domingues.

Adaptação: no novo ambiente, uma vez que ocorre a mudança da pastagem para o confinamento, o animal estará exposto a importantes alterações que vão além da substituição de dieta rica em fibra por outra mais concentrada (adaptação ruminal). Nessa etapa, além da formulação, ainda há outros desafios na chegada ao confinamento, como o reagrupamento, manejo sanitário (fármacos injetáveis, como vacinas e profiláticos), processamento de curral (contenção, pesagem, identificação), clima (quando vindo de regiões diferentes), e presença humana e máquinas, entre outras.

Fornecimento: e depois do animal já dentro do confinamento, não poderíamos deixar de destacar o planejamento e o controle do fornecimento da dieta, chamado “manejo de cocho”, que tem como objetivo reduzir as variações no consumo dos animais. Essa etapa tem como principal objetivo o ajuste de sobras, minimizando desperdícios, sem limitar o potencial de ingestão dos animais. O manejo de cocho sempre envolve três procedimentos básicos: “leitura de cocho”, observação do comportamento ingestivo dos animais e registro da oferta e do consumo de ração.

Gestão e Controle total sobre os processos de Produção:  a terminação de bovinos de corte apresenta inúmeras variáveis para serem consideradas e controladas, necessitando de um controle rigoroso na gestão das informações coletadas diariamente, caso contrário, dificilmente detectam-se as principais causas dos prejuízos dessa atividade ao final do período de engorda. Dentre esses fatores, podem ser listados os principais responsáveis pela redução dos lucros ou até mesmo prejuízo na terminação de bovinos de corte como: formação de lotes (peso, raça, sexo); fatores climáticos (como tratar a ocorrência de poeira ou do barro, principalmente); escolha/aplicação de protocolos sanitários efetivos; efetivação da dieta formulada; estoque de alimentos; carregamento de vagão e distribuição de tratos (horários e frequências pré-determinadas); ajustes de teores de matéria seca de volumosos; desperdícios (manejo de cocho); rotinas de trato; entre outros.

Mas gostaria de destacar o controle zootécnico, como a principal ferramenta que permite conhecer com profundidade os custos e despesas, facilitando a realização de uma análise econômica e identificando os fatores mais dispendiosos e localizando assim, os gargalos da produção animal.

Visão geral da Gestão e Controle total sobre os processos de Produção. Fonte: Rogério Domingues.
Visão geral da Gestão e Controle total sobre os processos de Produção. Fonte: Rogério Domingues.

Dentre as variáveis básicas que devem ser avaliadas na terminação de bovinos estão: ganho de peso diário (GPD), custo da arroba produzida ($/@), rendimento do ganho de peso (RGP) e conversão alimentar (CA). Para a obtenção desses indicadores ao final do período de engorda é importante obter as seguintes informações no início do processo: pesagem inicial e final (PI e PF), consumo de matéria seca (CMS), peso das carcaças (PC), custo total (alimentar e operacional).

Mão de Obra qualificada: a Gestão de Pessoas (treinamento de mão de obra), é fundamental para que todos os itens anteriores sejam concretizados. A maioria das falhas dentro de um sistema de produção ocorre por falha humana, seja em nível operacional, técnico ou gerencial.

As falhas podem ocorrer por diversos fatores como: inexperiência, ignorância, inabilidade, incompetência e/ou desmotivação. Assim, pessoas que não receberam treinamento adequado, ou desmotivadas/mal remuneradas, apresentando baixa qualificação podem colocar em xeque um excelente projeto, pelos prejuízos gerados. É impossível o sucesso da operação sem o ajuste e eliminação de tais fatores relacionados à gestão.

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AG: Quais são as possíveis causas destes entraves, os impactos e como podemos amenizá-los?

RD: Acredito que as principais causas dos entraves e problemas encontrados nos sistemas de terminação ou engorda é a não observação dos itens descritos anteriormente. Contar com uma boa consultoria técnica para desenvolvimento de projetos, na elaboração e desenvolvimento de estratégias e planejamento alimentar e mercadológico, são condições mandatórias para o sucesso da operação.

A compra de insumos, de animais e a venda do boi gordo, estão expostos às oscilações de mercado que podem colocar em risco a operação caso não haja a adoção de ferramentas/informações para mitigação desses riscos e proteção contra essa volatilidade de preços. O objetivo nesse caso, é sempre a garantia da margem, devido ao elevado custo da operação como todo. Vários casos de insucesso em atividades de confinamento ocorreram pela falta de um fator essencial que é o conhecimento técnico/econômico e gerencial da atividade. Isso me faz lembrar uma frase do célebre analista de mercado de ações Márcio Noronha, onde no primeiro parágrafo de seu livro “É só isso?”, referindo-se à atuação de pessoas inexperientes na bolsa de valores diz “(…) 90% das pessoas que iniciam investimentos na bolsa deixam para trás um rastro de sangue e dor (…)”; não é difícil encontrar pelo Brasil vários projetos bem elaborados do ponto de vista de instalações/equipamentos que foram bem concebidos, mas que não conseguiram se firmar pelo desconhecimento, falta de experiência e de uma consultoria competente.

AG: A engorda a pasto é a mais comum no Brasil, no entanto a engorda em confinamento mostra grandes resultados e tem crescido muito nas últimas décadas. Qual é a mais vantajosa?

RD: O confinamento a pasto tem sido uma alternativa no Brasil, principalmente como “ferramenta de manejo de pastagens”, em fazendas de recria-engorda ou mesmo de ciclo completo. Isso ocorre porque o período de confinamento coincide com o período seco do ano; época que devido às condições climáticas (principalmente, temperatura e precipitação) as forrageiras apresentam baixo valor nutritivo, baixa ou quase nula taxa de crescimento, limitando severamente o consumo e o desempenho animal.

Animais se alimentando de ração. Fonte: Rogério Domingues.
Animais se alimentando de ração. Fonte: Rogério Domingues.

Nesse momento, ocorre a possibilidade de concentração dos animais em determinadas áreas que passaram por um planejamento prévio/estratégico para acúmulo de forragem (diferimento), onde os animais terão acesso ao material fibroso acumulado no período de verão e da dieta concentrada em levadas doses para que seja possível o acabamento da caraça. É uma tecnologia de extrema importância e permite que muitos produtores, principalmente de menor escala, consigam efetivar com sucesso a terminação na propriedade ao invés de encaminhar os animais as parcerias ou boitel.

Nessa ótica, acredito que o confinamento total é uma evolução natural do confinamento a pasto, quando a escala passa a ser um fator de grande importância.

Com o crescimento da atividade e a concentração dos animais ocorre um maior ganho de eficiência, principalmente do ponto de vista operacional, pois os piquetes de engorda a pasto vão ficando cada vez mais distantes das fábricas e manipulação de insumos da dieta.

Outros pontos, como elevados investimentos em malhas de distribuição de água, estradas e manejo dos lotes em momentos para processamento em curral, elevam os riscos de acidentes devido às longas distâncias. O controle e a concentração das operações em um único local dão mais dinamismo e facilitam a revisão de decisões por ser mais fácil a observação de erros. Contudo, é de extrema importância, no caso da migração para confinamento total, a análise sobre a fração volumosa da dieta. Saber qual o volumoso deverá ser produzido, em função de características de clima, solo e máquinas disponíveis na propriedade ou na região, quais são os pontos favoráveis ou limitantes na produção de volumoso.

Um volumoso de qualidade pode reduzir a dependência de grãos em um ano específico, onde o mesmo tem preços muito elevados. Contudo o mau planejamento da fração volumosa e a busca por alternativas durante o confinamento, como a compra de volumosos de baixa qualidade (como exemplo, bagaço de cana) ou a necessidade de aumentar a fração concentrada, que será comprada fora da melhor época, impactam negativamente o resultado econômico e zootécnico. Resumindo, não creio que exista a opção mais vantajosa, mas sim a que mais se enquadre no escopo de trabalho de cada propriedade, em função de escala, de capacidade operacional, de produção de volumoso, entre outros.

AG: Quais os principais pontos para o produtor saber que está na hora de pensar em montar um confinamento?

RD: A pecuária profissional tem uma evolução natural, normalmente a atividade vai apresentando cenários de retornos positivos com o passar do tempo e o empresário vai enxergando as oportunidades de determinadas épocas como o crescimento de mercados externos e internos, ou mesmo pela abertura de novos mercados, como aconteceu recentemente com a China, que devido à alta demanda fez com que a arroba do boi ultrapassasse patamares de preços históricos. Nesse momento, quem está bem posicionado, “surfa a onda” de alta do mercado.

Acredito que o melhor momento de pensar em montar um confinamento, é quando todos os fatores do sistema de produção estejam chegando ao seu limite potencial. Ou seja, se a propriedade tem excelência em produção de arrobas a pasto, combinada com a suplementação, em seus variáveis níveis de oferta (de proteínas de baixo consumo na recria até rações com 2,0% do peso vivo na terminação) e não tem mais para onde crescer, o confinamento se torna uma ferramenta poderosa para aumentar a eficiência de todo o processo.

Animais se alimentando de ração em confinamento. Engorda ou Terminação. Fonte: Rogério Domingues.
Animais se alimentando de ração em confinamento. Fonte: Rogério Domingues.

Dentre as vantagens observadas estão: aumento de produtividade em função da redução do ciclo, com o abate de animais jovens; padronização da carcaça; melhor aproveitamento da carcaça magra (comprada com ágio na reposição); liberação de áreas de pastagens para outras atividades durante o período de confinamento; precisão dos custos de produção; uso mais eficiente da mão de obra, de maquinários e insumos; produção de carne no período de maior escassez; probabilidade de melhores preços no momento da venda. Todos esses fatores têm potencial de rentabilizar melhor o sistema de produção na fase da engorda.

AG: Qual o melhor período para iniciar a engorda a pasto? E em confinamento?

RD: A engorda a pasto pode ser realizada durante o ano inteiro; claro que no período chuvoso, temos a desvantagem do barro e a dificuldade operacional do trato, por isso o projeto de praças de alimentação deve estar bem fundamentado. Contudo, o capim de qualidade desse período ajuda a reduzir os custos da arroba engordada. Já no período seco, o confinamento a pasto é mais tranquilo, onde temos maior dependência do concentrado para estabelecer os ganhos de peso e maior custo operacional de logística comparado ao confinamento total.

O confinamento total, normalmente inicia-se no período de transição (outono/inverno), onde ocorre a redução das chuvas e o barro não limita o desempenho dos animais, podendo ser trabalhado por cerca de 7 a 8 meses, até novembro, onde o período de chuvas já começa a ser fator limitante (barro = estresse animal) e, principalmente de problemas relacionados ao desperdício de alimentação.

AG: Quais principais “imprevistos” previsíveis que ocorrem nesta fase e que podem ser evitados?

RD: Pensando em confinamento de empresas que têm as fases de cria e recria, ou mesmo das que compram animais jovens e recriam em confinamento, dos principais imprevistos que poderiam ser evitados na etapa da engorda, gostaria de citar, dois que acredito serem de suma importância:

Planejamento Alimentar: Trabalhar os volumes de compra de insumos, em quantidade e na época correta para compra ou estabelecimento de contratos de fornecimento, de modo a cumprir todo o período do trato, com atenção especial ao volumoso como discutido anteriormente (o volumoso é um ingrediente de baixa mobilidade e de comercialização difícil), pois a necessidade de compra ou substituição por ingredientes concentrados normalmente, encarecem o custo da dieta final (diária alimentar ou da arroba produzida).

Venda dos animais terminados: Nessa etapa, é essencial a utilização de ferramentas de mitigação dos riscos de mercado, seja pela consultoria direta, através de contratos a, termo, compra de opções de venda, uso de plataformas/informativos para vendas, entre outras ferramentas que possam garantir a rentabilidade planejada; ficando fora das principais quedas e volatilidade de preços do mercado, ocasionadas por períodos turbulentos gerados pela economia, política, barreiras sanitárias e entre outros, como o caso da saúde pública no momento atual.

Carcaça de animais abatidos. Fonte: Rogério Domingues.

AG: Qual o principal custo do sistema de engorda? O que o produtor precisa fazer para não errar neste ponto?

RD: No caso dos custos de produção, a variação encontrada no mercado é muito grande e cada sistema com suas particularidades apresentam seus centros de custos com mais ou menos impactos do que outros. Mas sem sombra de dúvidas, o principal custo dessa etapa é a alimentação (tirando a compra do animal, no caso da atividade ser somente o confinamento, ou da fase da recria/terminação, a recria vender o boi magro para o confinamento a valor de mercado).

Dentre os elementos que compõem a alimentação, destacamos os energéticos, compondo entre 50-70% do valor de diária alimentar. Isso não significa que podemos esquecer os custos administrativos e operacionais, que dependem de uma boa gestão administrativa e da implantação de um projeto de instalações/máquinas bem elaborado. Para que o produtor não erre nesse ponto essencial, é muito importante pôr em prática o planejamento mercadológico da compra de insumos, no período correto de compra ou realização de contratos com os volumes pré-estabelecidas pelas dietas elaboradas na consultoria nutricional.

AG: Desde o início do século, a amplitude do preço médio da @ do boi gordo diminuiu consideravelmente. Desde então, o produtor foi obrigado a investir em produtividade para compensar a perda de lucro especulativa. Este processo exige melhor gestão, tanto dentro quanto fora da porteira, pois a margens são menores. Comente um pouco mais sobre este lucro e como o produtor pode garantir sua rentabilidade?

RD: Isso é verdade. No início das operações de confinamento no Brasil (décadas de 70 e 80), existia uma grande variação de preços entre os períodos de safra e entressafra (chuvas e seca), cujo diferencial chegava a cerca de 30% no valor da arroba, e normalmente a arroba do boi magro tinha valor menor que a arroba do boi gordo. Nesse cenário, a escassez dava-se pela dependência das pastagens de verão para a engorda (praticamente 100% dos animais prontos para o abate eram oriundos desse período).

Os confinamentos dessa época, operavam com baixa eficiência, devido à falta de profissionalização e pouco domínio de técnicas de manejo. Contudo, o desempenho técnico/gerencial tinha pouco impacto na composição da rentabilidade do negócio. Tal ineficiência era tamponada pelo elevado diferencial de preços da entressafra, sendo o mercado o principal fator para garantir uma rentabilidade elevada. Com a passar dos anos, a carne passa a ter os preços ditados pelo mercado internacional. Junto a isso, o aumento dos confinamentos no país, inicialmente para aproveitar os altos preços da entressafra, se vêm forçados às práticas de uma gestão eficiente para garantia de rentabilidade. Nos dias atuais, é a etapa da pecuária que requer mais alto nível de gestão, visto o alto volume de dinheiro empregado no curto espaço de tempo.

Por exemplo: boi de [email protected] x 210,00 = R$ 2.520,00/cabeça + alimentação R$ 800,00/cabeça = R$ 3.320,00/cabeça; para cada 1.000 bois, falamos de R$ 3,32 milhões que terão abatidos e seu ciclo completado em 100 dias. Nesse caso, qualquer descuido de planejamento, estratégia (compra, venda, travas), ou gestão de operação, podem levar ao fracasso de todo empreendimento.

AG: Quando não se considera o boi magro, o maior custo da engorda passa a ser a dieta. No entanto, alguns insumos como milho e soja apresentam oscilações maiores que o boi gordo. O que pode ser feito para este custo ser o menor possível?

RD: As oscilações de mercado milho/soja ocorrem todos os anos e, realmente a volatidade se expressa em função de volumes de estoques internos, demanda externa de grãos e farelos, clima, expectativa de safras, etc. O confinador por sua vez não pode e não deve ficar exposto a tal volatilidade, ao ponto de colocar em risco toda sua operação, com as alterações nos custos da dieta alimentar. Hoje, temos ferramentas para mitigação de riscos e um mercado muito bem informado para as travas de preços ou que apontam os momentos de melhores relações de troca, como por exemplo boi/milho; que podem dar estabilidade durante o período de engorda. Somente dessa forma é possível concretizar as margens apontadas no período do planejamento que antecedeu ao início da operação.

AG: Existe alguma conclusão ou mensagem que você gostaria de deixar para os leitores que estão acompanhando este artigo?

RD: A pecuária de corte brasileira ocupa lugar de destaque na economia nacional. Toda a cadeia colabora de forma efetiva na geração de empregos e para o saldo positivo da balança comercial. Dados da ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne) de 2019 apontam que o PIB da Pecuária foi de 8,5% do PIB total de R$ 7,3 trilhões, crescendo 7,6% em 2019, somando R$ 618,50 bilhões, evidenciando a força do setor.

O Brasil tornou-se o maior exportador de carne bovina do mundo. E os cenários futuros são promissores, como a demanda de proteína animal de qualidade tendendo a atingir mercados consumidores de países mais pobres, já é uma questão de consciência e de saúde mundial. A pecuária de corte nacional possui elevada capacidade de se manter como maior exportadora e, ainda, atender a todos os mercados mundiais e até mesmo, conquistar mercados mais exigentes que melhor remuneram.

Do ponto de vista da unidade de produção é importante ter a consciência de que a margem de lucro vem se estreitando ano a ano, fazendo-se necessário então, o aumento da escala de produção e, principalmente da adoção de tecnologias.

A utilização do confinamento para bovinos na fase final de produção é um dos fatores responsáveis pelo aumento de produtividade no sistema de produção de bovinos de corte. Também é uma excelente ferramenta de redução da carga animal em pastagens que trabalham com ciclo completo ou de recria-engorda, no momento que a baixa produção de forragens, coincidente ao período de confinamento (estação seca).

A implantação de qualquer sistema de terminação deve ser planejada, considerando sempre riscos, vantagens, tipo de animal, insumos, mão de obra capacitada, instalações, clima, disponibilidade de volumoso, assistência técnica, entre outros fatores que podem limitar o sucesso do sistema escolhido para a execução da terminação dos bovinos. A mensagem final é: “Existe grande potencial de mercado, portanto produza! Contudo o faça com eficiência e conhecimento envolvendo todas as etapas e processos e garanta sua rentabilidade!”

Você tem mais perguntas para o Rogério Domingues?

Seu e mail para contato é: [email protected];

Ele também pode ser encontrado no Instagram: @rogeriofernandesdomingues.;

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