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Recria: 5 principais entraves

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Fazenda Santa Maria, Itápolis, SP.
Fazenda Santa Maria, Itápolis, SP.

Cria, Recria e Engorda. Os processos de produção pecuária são extremamente importantes e complexos.

Na etapa de cria, como já comentado no texto “Cria: 5 principais entraves”, há a preocupação em disponibilizar as melhores condições para que o desmame ocorra no maior número de bezerros com o maior peso possível. Esta fase tem uma grande importância para os pecuaristas.

Outra etapa, que é ainda mais valorizada, é a engorda ou terminação. É o último estágio do ciclo e é dele que resulta o animal pronto para o abate.

Porém, existe um período bem significativo, não tão considerado que vai do desmame até o início da engorda, conhecido como recria. Assim como as outras, é uma etapa que demanda muita atenção e especial cuidado.

Nesta fase, a intenção é estimular o desenvolvimento de estrutura óssea e muscular para que, posteriormente, o animal esteja pronto para o estágio reprodutivo ou engorda. Um pequeno deslize nesta fase, pode representar um grande prejuízo para o produtor rural.

Pensando nisso, a Agromove preparou uma entrevista com o especialista Marco Antônio Álvares Balsalobre, para explicar os principais entraves e cuidados que devem ser tomados nesta fase.

Introdução

Marco Balsalobre é formado em 1990, pela ESALQ-USP, no curso de Engenharia Agronômica, Mestre em Ciência Animal e Pastagens em 1996, pela mesma Universidade e Doutor em Ciência Animal e Pastagens em 2002, também pela ESALQ-USP. Participou do Programa de Desenvolvimento de Conselheiros – PDC, da Fundação Dom Cabral em 2012. Consultor em empresas agropecuárias de 1990 a 2002, Diretor técnico da Bellman Nutrição Animal de 2002 a 2012 e Diretor técnico da Trouw Nutrition de 2012 a 2017.

Questões

Agromove: Como o sistema de recria pode ser melhor descrito?

Marco Balsalobre: Entende se por recria o período entre a desmama dos animais (entre 7 e 8 meses) e o período de engorda dos animais. A engorda dos animais, quando entram no confinamento, fica fácil de ser estabelecido. Entretanto, a maioria dos animais não são terminados em confinamento no Brasil. Nesse caso, o final da recria pode ser por adoção de alguma prática pré-estabelecida em determinada fazenda, como uma suplementação alimentar diferente, tamanhos de lotes menores, pastagens de melhor qualidade.

O tempo de recria também pode variar a depender da intensificação do sistema. Pode ser de alguns poucos meses até 2 anos ou mais.  Vale comentar que a recria pode ser eliminada, isso ocorre quando animais desmamados são colocados diretamente no confinamento.

 A eliminação da recria pode parecer a tendência para o futuro, entretanto, deve ser analisada do ponto de vista financeiro. Nem sempre é o mais rentável.

AG: Quais são os 5 principais entraves desta fase? Descreva cada um deles.

MB: Vamos lá. Tentarei identificar cinco entraves. Não sei se conseguirei. De qualquer forma, entendo que entraves são atividades essenciais e não obstáculos.

O primeiro é a compra dos animais. Os melhores animais para uma boa recria e posterior engorda, são os bezerros desmatados entre abril e junho. A compra desses bezerros deve representar boa parte da reposição, mais de 50%. Desse modo, a busca por esses animais no curto prazo de tempo é prioridade e há dificuldade para se conseguir realizar.

O segundo entrave é que a compra desses animais é feita antes do envio dos animais recriados do ano anterior terem ido para a engorda, portanto, sem receita e com despesas antecipados, há necessidade de um bom capital de giro.

O terceiro entrave é que boa parte desses animais devem dar entrada na fazenda no início da seca. Portanto, o sistema tem que estar preparado para receber animais de boa demanda nutricional em período de baixa massa de forragem. Deve-se ter um bom planejamento de orçamento de forragem no sentido de garantir boa oferta de alimento para os animais na primeira seca.

O quarto ponto importante é que esses animais, para uma pecuária eficiente, devem permanecer na fase de recria por não mais que 1 ano. Para isso o ganho de 6 arrobas ou mais nesse período é essencial. No Brasil Central, dificilmente se consegue ganhos de 6 arrobas sem a utilização de um suplemento proteico ou até mesmo proteico/ energético na seca. Isso demanda despesa e adequação de produto; formulação adequada, consumo correto, fornecimento frequente e bom manejo.

O quinto ponto é o adequado manejo para ganhos altos nas águas e término da fase com animais acima de 400 kg e aptos a serem terminados, de preferência em confinamento. A suplementação proteica nessa fase pode ser necessária. Mas, além da orçamentação forrageira, o que as fazendas encontram muitas dificuldades é no manejo desses animais.

Devido, principalmente, à sodomia, optam por fazerem lotes pequenos. Isso dificulta o manejo na fazenda, muitos pastos ficam ocupados, há dificuldade em se intensificar essas áreas com fertilizantes e o sistema não evolui à contento. Devido a isso, baixa oferta de forragem em períodos distintos das águas é comum, sendo assim, o ganho de peso é comprometido, os animais não atingem o peso desejado e são obrigados a permanecerem mais uma seca e, às vezes, mais um verão na fazenda. Ou, até mesmo, são levados mais leves ao confinamento não dando a receita desejada. O planejamento forrageiro, manejo dos lotes, divisão de pastagens são essenciais para o sucesso da recria nas águas.

AG: Quais são as possíveis causas destes entraves, os impactos e como podemos amenizá-los?

MB: Os focos da recria eficiente são a compra de animais de boa qualidade, no momento certo, promovendo ganho de peso adequado para que o animal permaneça na fazenda por no máximo 12 meses. Para isso, precisa-se ter um bom plano forrageiro para não haver baixa oferta de alimento. Ter uma adequada nutrição, com suplemento correto ao longo do ano. Ter capital de giro suficiente para comprar bons animais no momento certo. Preparar a fazenda com divisões de pastagens para formação de lotes adequados ao bom manejo animal e das pastagens.

Recria. Foto: Calves
Foto: Calves

AG: A recria é considerada a etapa mais negligenciada pelos produtores. Essa negligência pode gerar problemas de custos no curto prazo e afetar a lucratividade no longo prazo. Quais as principais medidas a serem tomadas para evitar estes problemas?

MB: Se uma fazenda faz cria, recria e engorda. E a etapa de recria é negligenciada, ou seja, o desempenho do animal é inferior ao potencial. O sistema como um todo vai ser afetado, mas é possível recuperar isso no processo de engorda, por exemplo. Mas uma fazenda que faz apenas a recria, acaba por não conseguir recuperar essa negligência.

Por exemplo, se você compra o bezerro com 6 ou 7 arrobas e vende o boi magro com um determinado peso, e nesse período de mais ou menos 1 ano com um ganho de 2 ou 3 arrobas, certamente você vai ter um custo fixo de 20 a 30 reais, mais o variável, a arroba engordada vai ficar muito cara.

Como a arroba do bezerro já é naturalmente mais cara que a arroba do garrote que vai ser vendido, naturalmente esse preço não paga a atividade.

Podemos considerar o recriador não como um produtor, mas sim como um especulador. Ele compra bezerros procurando um preço abaixo do mercado e procura vender o garrote a um preço acima do mercado. Ele acaba ganhando mais neste jogo de compra e venda do que na produção em si.

Aprender a lidar com o mercado é essencial para esta fase da produção. Além do ciclo pecuário que traz períodos positivos e negativos de preços, temos a volatilidade do mercado, que em média oscila por volta de 24% entre a máxima e a mínima do ano. Portanto, um bom gestor precisa entender a tendência no ciclo e saber encontrar oportunidades dentro do ano. Ferramentas como as Plataformas Inteligentes Agromove, que auxiliam a identificar os estágios dos ciclos, encontrar zonas de compra e venda dentro do ano, ajudam o produtor a capturar estes ganhos do mercado para aumentar seu lucro.

O desafio está em combinar as ações mercadológicas com as produtivas. Ter uma fazenda produtiva, flexível e preparada para explorar as oportunidades do mercado  

Então a negligência desta atividade, sem dúvida nenhuma vai trazer prejuízos e vai fazer com que ela não seja rentável e não seja adequada para este tipo de fazendeiro.

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AG: Em uma publicação, o blog Gestão Agropecuária comenta que como o foco dos pecuaristas é a engorda, o mercado para garrotes é promissor. Quais os cuidados que devem ser tomados para manter a saúde financeira da propriedade e garantir que este mercado seja, de fato, promissor?

Artigo do blog Gestão Agropecuária “Recria de bezerros: como manter uma boa gestão”.

MB: Tem aumentado o número de animais confinados e o número de confinamentos no Brasil. Isso já tem sido analisado em estados como GO e MT.

Na atividade de cria, recria e engorda é bem interessante, pois o confinamento entra como um ajuste de carga da fazenda. Fazendas ou confinamentos que possuem somente a atividade de engorda são muito vulneráveis ao mercado e essa vulnerabilidade pode trazer alta rentabilidade. Se o confinamento consegue ter uma eficiência na engorda e na compra e venda dos animais, isso pode gerar uma atividade bem rentável.

Entretanto, a originação (fornecimento dos garrotes da recria) dos animais, é sempre um grande problema para os confinamentos. E isso tem, realmente, sido um problema e pode ser uma oportunidade para quem faz a recria ou até mesmo quem fazia a recria e engorda e passa a fazer a recria e sabe a dificuldade deste problema na originação e na compra de insumos. Essa atividade de engorda, está cada vez mais voltada para grandes confinamentos por conta das oportunidades de melhores negociações em quantidades maiores, e a originação mais adequada é uma boa oportunidade.

Existem áreas do Brasil com uma concentração muito alta de confinamentos que possuem esse problema na originação. Como já comentei, o estado de GO.

AG: Quais os principais alertas, tanto na gestão como na produção, que devem ser considerados nesta fase?

MB: Os riscos da atividade de recria são encontrados principalmente na comercialização e na gestão da fazenda. Como já foi comentado, você deve ser um bom gestor na parte de compra, escolhendo animais com boa genética e comprando na época certa, e na parte de venda, sendo um bom vendedor dos animais com bom potencial e vendendo no tempo certo. Entretanto, um bom ganho de peso, reflexo de uma boa suplementação e manejo adequado da pastagem também são de extrema importância para o sucesso da atividade.

A gestão da atividade de recria, que é o bom manejo de pastagem e suplementação adequada, são essenciais para se ter bons desempenhos dos animais. No entanto, uma questão é a formação dos lotes, eles devem ter números de animais adequados à fazenda. Lotes com poucos animais e poucos pastos para manejar cada lote, geram problemas, pois não é possível explorar adequadamente o crescimento da forragem. E lotes muito grandes com pouca divisão de pasto causam um problema de manejo dentro do lote, pois há a questão de sociabilidade dos animais. A mistura de animais dentro de um lote, sem que haja o adequado manejo e gestão da fase de adaptação, pode causar problemas de liderança e sodomia.

O controle também é muito importante, pois os animais chegam em épocas diferentes e com várias genéticas (e, portanto, desempenhos diferentes), e é necessário saber quanto tempo o animal fica dentro da fazenda para ter um controle de venda estabelecido.

AG: Com a intensificação da cria, os bezerros têm ganhado representatividade no custo da pecuária, a piora nas relações de troca nos últimos anos demonstra este ponto. Como a reposição é o maior custo da recria, como os produtores devem lidar com esta tendência de piora na relação de troca?

MB: Nos últimos 2 ou 3 anos a relação de troca piorou e houve um aumento no valor do bezerro. Isso está alinhado com o ciclo da pecuária, mas pode ser que estejamos em uma tendência de alta de bezerro mesmo e uma relação de troca um pouco pior. Entretanto, o poder de compra de quem compra e vende o garrote ou o boi gordo aumentou, pois os outros custos não aumentaram.

Por outro lado, o bezerro é considerado melhor. São vários os exemplos de fazendas que relatam que não têm mais bezerro nascendo em janeiro ou dezembro, e nós sabemos que os melhores bezerros são nascidos entre setembro e novembro, e alguns florões nascidos entre junho e agosto são ainda melhores. Isso se dá, pois durante a gestação da vaca, ele passa por um período de boa qualidade de forragem e quando ele nasce, apesar de não ter voltado o período das chuvas, a vaca possui uma boa reserva e uma condição ótima de fornecer um leite nutritivo para este filhote. No momento que ele passa a se alimentar de pastagem também, já entra uma pastagem de alta qualidade, que está por volta do mês de dezembro. E ele vai desmamar em abril ou maio ainda com pastagens de boa qualidade.

Então é um bezerro que não teve nenhum percalço durante o seu período de desenvolvimento, não só na fase embrionária, mas também após o nascimento.

Fechando o raciocínio, embora a relação de troca tenha piorado, a qualidade inicial do bezerro aumentou. Antes era comum abater o animal com 17 a 18 arrobas e agora não é comum encontrar animais com menos de 20 arrobas.

Então, ter bezerros de melhor qualidade, permite que saiam garrotes melhores e maiores para o confinamento, agregando valor aos animais. É um jogo de troca, quanto pior a relação, mais caro o bezerro, mais eficiente deve ser o processo de recria e mais pesados os animais no momento da venda. Então, essa é a forma que nós temos de driblar esta situação. Nem sempre elas são viáveis, mas quando não são é necessário rever o sistema de produção que está sendo adotado.

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AG: Grande parte da recria no Brasil é feita no sistema de pasto. O que o recriador pode melhorar no seu manejo de pasto para enfrentar os desafios citados acima?

MB: Em relação ao manejo da pastagem, ainda há muita coisa a ser feita. Muitos estudos e desenvolvimento.

A recria, certamente, é a atividade que mais responde à intensificação, a adubação de pastagem e aumento da rotação animal. Os riscos não são tão altos, pois imaginando que em maio os animais serão vendidos, muito embora haja a compra de bezerros, ocorre um ajuste de cargas, pois os bezerros são bem mais leves que os garrotes.

É muito fácil intensificar o sistema de recria, pois não é necessário implementar volumoso na seca. Lembrando que para intensificar 1 UA para 4 ou 5 UA, é necessário adubar os pastos no verão e no inverno acaba sendo o confinamento mesmo.

O confinamento em termos de recria por um tempo longo não é adequado, o interessante é no máximo 45 a 60 dias. Deste modo, a intensificação no verão faz mais sentido.

Então, a intensificação de pastagens é uma forma de garantir a rentabilidade. Sendo por hectare, e não mais por cabeça. E é possível ganhar menos por cabeça, mas ganhar mais por hectare. É lógico que desta forma ocorre um aumento do risco, portanto é muito importante uma boa administração destes fatores.

AG: Existe alguma mensagem ou conclusão que você queira deixar para o produtor que está lendo a sua entrevista?

MB: Um último recado que eu daria é que a atividade de recria é a mais rentável, sem dúvida nenhuma, mas é a mais difícil de ser feita.

Você tem que ser um bom negociante, deve estar constantemente avaliando o mercado, ser um bom vendedor (a venda é uma arte), com apresentação adequada, lote indicado para cada cliente.

Então, a recria depende muito mais da negociação do que as fases de cria e engorda.

Enfim, o recado que eu gostaria de dar é que não devemos nos esquecer que a comercialização é importante, mas a atividade dentro da fazenda é tão importante quanto.

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