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Solo Fértil (Kiss the Ground) – Uma visão crítica

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Plantas germinando.

Introdução

O documentário americano “Kiss The Ground” foi lançado em abril de 2020 nos Estados Unidos por Joshua Tickell e Rebecca Harrel Tickell e mundialmente, na plataforma de streaming “Netflix”, em setembro do mesmo ano. A versão brasileira recebe o nome “Solo Fértil”. O tema principal das filmagens e abordagens é a conscientização do telespectador acerca do uso da camada superficial do solo para o cultivo agrícola global. O grupo de pessoas participantes do documentário inclui cientistas, agricultores, atores e políticos que debatem sobre a por eles chamada “agricultura regenerativa”, voltada para a recuperação de solos degradados pelo intenso revolvimento causado por atividades agrícolas.

O tipo de fotografia é didático e envolvente, tem por intuito captar a atenção dos que assistem por filmagens impressionantes e cativantes, bem como desenvolver depoimentos práticos e reais de pessoas que possuíram, de alguma forma, uma mudança em suas vidas pelo novo tipo de manejo nos solos proposto pelos protagonistas.

Problemática

O documentário tem como problema principal a consequência a longo prazo do uso indiscriminado da camada superficial do solo: a desertificação. Segundo os autores, regiões antes consideradas férteis, como o crescente fértil na Mesopotâmia, as civilizações da Grécia e do Egito, bem como o berço da civilização chinesa no oriente, já foram locais de grande fertilidade, como mostram os registros observados das gravações que suportaram a ação do tempo.

Hoje, estas regiões apresentem nenhuma prática agrícola rentável, justificada, pelos autores, pelo alto revolvimento do solo, que provocou, a longo prazo, a perda da matéria orgânica para a atmosfera e consequentemente, o esgotamento da vida microbiológica do solo, ressaltada no documentário como fornecedora de estabilidade, produtividade e segurança ao plantio antrópico atual.

A argumentação se apoia em registros reais de produtores que adotaram uma mudança em seus manejos no campo, como a adoção de práticas de rotação de culturas, abandonando a sucessão repetitiva de safras e a prática do plantio direto. Também são mostradas, no documentário, imagens de satélite que evidenciam a concentração de CO2 na atmosfera conforme passam as épocas do ano: em períodos de plantio, preparo de solo e escarificação no hemisfério norte, a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera é nitidamente maior, ocupando grande parte do preenchimento do mapa global.

Figura 1 - Concentração de CO2 atmosférico durante o período de preparo de solo no hemisfério norte.
Fonte: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=x1SgmFa0r04
Figura 1 – Concentração de CO2 atmosférico durante o período de preparo de solo no hemisfério norte.
Fonte: Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=x1SgmFa0r04
Figura 2 - Concentração de CO2 atmosférico no mapa mundi no período de crescimento vegetativo de safra do hemisfério norte.
Fonte: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TrQzbXc6LVE
Figura 2 – Concentração de CO2 atmosférico no mapa mundi no período de crescimento vegetativo de safra do hemisfério norte.
Fonte: Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=TrQzbXc6LVE

No entanto, no pleno crescimento das plantas, esta concentração diminui consideravelmente, indicando que as plantas, responsáveis por absorver o CO2 atmosférico, transformando-o em O2 e fixando carbono orgânico no solo, são capazes de reduzir o processo de aquecimento global, sendo uma forma simples e rentável de se produzir mais, evitando as mudanças climáticas no planeta, fazendo parte da solução da problemática proposta pelos autores.

Solução

Cerca de apenas 5% dos produtores norte-americanos realizam as práticas consideradas conservacionistas em relação ao manejo correto do solo: a rotação de culturas, a manutenção da palhada no solo, o hábito de manter o solo sempre coberto são alguns dos fatores que propiciam o aumento da matéria orgânica do solo, a melhor sanidade das plantas cultivadas na safra, a retenção da umidade proveniente das chuvas, a diminuição da temperatura absoluta na superfície da lavoura, o controle natural de plantas daninhas, e o mais importante, segundo os autores: a retenção do carbono atmosférico no solo.

A intenção, firmada no final do longa é simples: por meio da extensão, divulgação e debates, fazer com que, até 2025, a taxa de adesão aos métodos conservacionistas de manejo no solo pelos produtores seja de 50% nos Estados Unidos. Logo, espera-se ver uma diminuição na emissão de gases de efeito estufa, fazendo com que se reverta os processos de aquecimento global causados pelo revolvimento do solo pela agricultura convencional.

Na visão do documentário, a pecuária não teria envolvimento direto com a emissão de gases, e o gado mundial atuaria, na verdade, como um provedor de matéria orgânica e vida microbiológica ao solo, sendo uma ferramenta passível de reversão de áreas de pastagens degradadas.

A fertilidade do solo seria mantida, tanto pela concentração de matéria orgânica, que proveria uma melhor disponibilidade de nutrientes pela ação de microrganismos e, outra solução apresentada, foi pelo uso da compostagem, coletando resíduos orgânicos das cidades, de restaurantes e casas, para serem transformados em adubo orgânico por empresas especializadas, que então, fariam um papel de mediador entre a transformação dos resíduos em adubo pela compostagem e venderia o produto final para o produtor em suas fazendas.

Para ressaltar o papel da biodiversidade cultural no solo, foi mostrado o exemplo do berço da civilização chinesa, o Loess Plateau, lugar onde a agricultura começou, até então desertificada, pelo plantio sucessivo durante centenas de anos, agora com sua vegetação reestruturada, com o uso de espécies nativas, adubos orgânicos, inoculação de microrganismos e demais práticas, têm-se agora um novo espaço, recuperado, mas somente com um alto valor de investimentos e capital humano nas operações.

Figura 3 - Exemplo de agricultura regenerativa do Loess Plateau.
Fonte: Disponível em: https://uk.lush.com/article/lesson-regenerative-agriculture-loess-plateau
Figura 3 – Exemplo de agricultura regenerativa do Loess Plateau.
Fonte: Disponível em https://uk.lush.com/article/lesson-regenerative-agriculture-loess-plateau

Logo, valoriza-se o plantio de agroflorestas, ressaltadas no documentário como provedoras de alimentos diversificados à mesa do consumidor, sendo capaz de ser explorada em grandes áreas agricultáveis, inclusive nas consideradas com um menor valor fértil para o plantio convencional, nas quais, na maioria das vezes, seriam plantadas monoculturas que beneficiariam a providência de ração com um alto valor proteico para animais que virariam carne para a mesa do americano, ao invés de prover alimento direto ao ser humano.

Críticas

O documentário não explora bem o tema da disponibilidade de nutrientes no solo, fundamental na produtividade agrícola, que certamente seria impactada pelo constante uso da terra sem a restituição daquilo que se é extraído do solo, uma vez que compostos orgânicos são necessários em quantidades grandes para suprir o necessário ao solo para uma boa produção, fazendo necessário uma maior rede de transportes, encarecendo o produto e consequentemente, aumentando a emissão de gases de efeito estufa pela queima de combustíveis fósseis. Não são falados temas como a adubação mineral das plantas, logo, seria necessária a avaliação de viabilidade dos modelos propostos pelos sistemas de agricultura de regeneração.

Em outro cenário, quando são mostrados os mapas de concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, são parcialmente ignorados os demais motivos de emissão, como a queima de combustíveis fósseis, a geração de energia pelas termelétricas e demais usinas que emitem CO2.

Quando ocorre a redução da concentração de gases, na primavera e no verão, dá-se que o motivo principal seja o crescimento vegetativo das plantas cultivadas, que absorvem os gases “GreenHouse”, mas não é levado em conta o suprimento de água às florestas e aos demais biomas além das lavouras, permitindo que essas aumentem os seus metabolismos e absorvam mais CO2 para ocorrer a fotossíntese, considerando que estas não possuem um papel de destaque no processo.

Por outro lado, o documentário é bem didático, mesmo para aqueles que possuem pouca informação sobre o assunto. Cria uma base inicial, de como funciona uma planta como fator em um ecossistema, e como funcionam os métodos de plantios agrícolas da atualidade, e evolui para as práticas de manejo recomendadas baseando em informações técnicas para a tentativa de sanar o problema do aquecimento global, considerando que o problema seja o revolvimento do solo, expondo gás carbônico antes retido na camada superficial. É algo que vale a pena assistir.

Conclusão

O documentário aborda de maneira didática um assunto pertinente aos dias atuais: a agricultura como forma de fornecimento de alimentos à humanidade e como provedora de soluções práticas aos problemas de aquecimento global. A proposta de agricultura regenerativa possui embasamento técnico e prático, e vem trazendo bons resultados àqueles que a praticam, seja na redução do número de aplicações necessárias nas lavouras, seja na redução da necessidade de adubações. Resta agora, aos praticantes da agronomia, sejam acadêmicos ou produtores, experimentar a viabilidade econômica e agronômica do modelo, a fim de observar a resolução dos problemas apresentados a longo prazo.

Fique ligado nos próximos posts para saber mais o funcionamento de diferentes práticas agrícolas ou entre em contato com o Grupo de Apoio a Pesquisa e Extensão (GAPE) que atua nas áreas de adubação e nutrição mineral de plantas.

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