Cadeia Produtiva da Carne Bovina, Tendências e Desafios!

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Foto: Carlos Lopes.
Foto: Carlos Lopes.

Para atuar em qualquer setor, uma das primeiras coisas que um empreendedor ou empresário necessita é conhecer o mercado e o ambiente no qual o negócio está inserido. É preciso entender a Cadeia de Valor e analisar quais são as forças que influenciam nas atividades desenvolvidas e nos preços das commoditie.

As 5 Forças de Porter

Michel Porter criou um modelo de análise que considera 5 grandes forças. Estas forças avaliam a posição de um negócio em seu respectivo mercado e suas interações. A figura 1 ilustra o modelo e cada uma das 5 Forças de Porter.

Figura 1 - 5 Forças de Porter.
Elaboração: Agromove.

Figura 1 – 5 Forças de Porter.
Elaboração: Agromove.

Porter explica que todas as cadeias são influenciadas por estas forças. Para entender os conceitos de formação de preços e competitividade dentro de um setor, precisamos analisar estas interações. Vamos comentar rapidamente o que cada uma significa.

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Poder de Barganha dos Fornecedores

É o tamanho da sua dependência em relação os seus fornecedores. É o quanto seus fornecedores conseguem influenciar no preço da sua matéria prima. Exemplo: imagine a Cadeia Produtiva de Petróleo, onde existem poucos fornecedores de matéria prima. Estes têm grande poder de controlar a oferta. No outro extremo, costumam estar as commodities agrícolas. Que pela grande quantidade de produtores, não possuem condição de controlar o mercado. Portanto, os preços são influenciados pela Oferta e Demanda.

Poder de Barganha do Compradores

Algumas cadeias possuem poucos compradores e, portanto, estes podem facilmente controlar os preços na compra e na venda. Podemos citar aqui a concentração do varejo no mundo. Somente na carne bovina, as 5 maiores redes varejistas comercializam entre 60% a 70% da carne bovina no Brasil. Nos EUA, as 3 maiores indústrias frigoríficas abatem 60 a 70% dos animais.

Barreiras de Entrada a Novos Concorrentes

Estas barreiras se caracterizam pela dificuldade ou facilidade de se entrar em um determinado setor. Altos investimentos, alto grau de tecnologia e alta concentração em um determinado elo são fatores que dificultam a entrada de concorrentes. Exemplo: a indústria do Petróleo é caracterizada pela concentração no setor e altos investimentos.

Ameaça de Produtos Substitutos

Aqui estão os produtos similares em que o comprador pode optar na hora de efetuar sua compra. Exemplo: na cadeia produtiva da carne, podemos citar o frango, suíno, peixe e bovinos como proteínas animais substitutas.

Rivalidade entre os Concorrentes

A rivalidade se caracteriza pela quantidade de concorrentes que um determinado elo possui. Quanto maior, maior será a concorrência. Exemplo: os pequenos restaurantes possuem uma grande quantidade de concorrentes. Assim, precisam se especializar em determinadas características (preços, serviço, qualidade) para poderem se diferenciar.

Entendendo a Cadeia Produtiva da Carne Bovina e suas forças.

Na cadeia produtiva da carne bovina, se definirmos os produtores como o elo central da figura, poderíamos dizer que é um elo com alta rivalidade entre seus concorrentes, pela quantidade de produtores existentes. Segundo o IBGE, temos mais de 3.000 propriedades exercendo a atividade no Brasil. Com um rebanho de mais de 180 milhões de cabeças.

No mercado mundial, estamos entre os maiores exportadores. No entanto, 70% das exportações mundiais estão nas mãos dos 5 maiores exportadores (Brasil, EUA, Austrália, Índia, Argentina).

Alguns países possuem vantagens competitivas em preço e qualidade (Austrália, EUA, Argentina e Uruguai), outros somente em preço (Índia).

O Poder de Barganha dos Compradores também não é elevado. As 3 maiores indústrias do setor adquirem algo próximo a 43% das compras de animais. No entanto, há algumas regiões onde certas indústrias são mais concentradas. Com mais de 70% do abate entre os 3 maiores, resultando em maior poder de barganha. Em 2018, segundo o IBGE, o Brasil apresentou 1.109 plantas registradas entre abatedouros municipais, estaduais e federais.

Nas importações de carne também há uma tendência de concentração pelas exportações da China.

Quanto ao Poder de Barganha dos Fornecedores podemos citar que há uma alta competitividade instalada nesta indústria. Além da grande diversidade de insumos, estes, na maioria, não possuem grande representatividade nos custos. Ou seja, mesmo que houvesse uma concentração em um determinado insumo, não haveria grande impacto no custo da produção.

Uma ameaça periférica a ser observada é a indústria de suplementação. Que representa um dos custos relevantes da produção e tem se concentrado na última década. No entanto, hoje esta é uma indústria muito competitiva que também traz vantagens. Pois beneficia o país com novas tecnologias que ainda não encontramos por aqui.

Este elo também se caracteriza por não possuir uma grande Barreira de Entrada para Novos Concorrentes. Uma vez que fazendas de pequeno e grande porte podem ser produtoras de gado de corte. Os investimentos para a entrada no setor não são grandes, assim como a tecnologia para se tornar um produtor não é elevada.

A Índia tem se destacado como um novo concorrente no mercado mundial de carnes. Devido ao seu grande estoque de animais e as mudanças na cultura e suas regulamentações, o país se tornou, em menos de uma década, um dos maiores exportadores mundiais. A maior vantagem competitiva está na sua logística e preços. No entanto, possui desvantagens nas questões de qualidade, genética e tecnologias em relação ao Brasil.

A carne bovina é uma das proteínas animais mais consumidas no mundo, estando atrás da carne suína e da carne de frango. Dentro das proteínas animais encontramos várias Ameaças de Produtos Substitutos, porém estas são as mais diretas. Como citado acima, a carne mais consumida no mundo é a suína e vem sendo ameaçada pelo rápido crescimento do consumo de frango. A cultura influencia neste consumo, como na Índia, onde há uma cultura vegana e de não consumo de carne bovina. Recentemente, observamos um crescimento de veganos no mundo. Portanto, esta tendência passa a ser uma ameaça ao consumo de carnes.

A competitividade destas carnes na questão de custos e eficiência produtiva também traz uma ameaça constante para a carne bovina.

Fluxograma da Cadeia Produtiva da Carne Bovina

Para compreendermos melhor a complexidade dos Elos da Cadeia Produtiva da Carne Bovina, anexamos o fluxograma abaixo.

Neste artigo focaremos nossa análise no elo produtor. Uma análise completa da cadeia engloba a avaliação de Porter para cada elo.

Figura 2 - Fluxograma da Cadeia da Carne Bovina.
Elaboração: Agromove.
Figura 2 – Fluxograma da Cadeia da Carne Bovina.
Elaboração: Agromove.

Para uma boa compreensão da Cadeia da Carne Bovina é necessário nos aprofundarmos um pouco mais nas informações do Setor. Vamos pensar nas principais Tendências.

Quais seriam as Principais Tendências da Cadeia Produtiva da Carne Bovina?

Para entendermos as tendências de uma cadeia devemos trabalhar em diversos aspectos como:

  • tendências tecnológicas
  • tendências regulatórias
  • tendências sociais e culturais
  • tendências socioeconômicas.

Vamos abordar cada uma delas.

Tendências Tecnológicas

Dentro da porteira, as principais tendências tecnológicas estão relacionadas com a intensificação do setor, com ferramentas de gestão e com o aumento da produtividade. Muitas forças externas vêm empurrando a pecuária para a aquisição de tecnologias. Dentre elas, podemos citar o melhor uso da terra, as pressões ambientais e econômicas.

Sobre o uso da terra, observamos um crescimento da atividade agrícola que por intensificar o uso da terra, aumentou a rentabilidade. Desta forma, a pecuária tem duas opções ceder para a agricultura ou intensificar com maior produtividade por área e por animal.

Do lado ambiental, há uma grande pressão para redução das emissões de carbono e evitar a abertura de novas áreas. Ambas levam o produtor para a intensificação.

Também devemos observar as ameaças tecnológicas que estão chegando ao setor, como as carnes de laboratório e as tentativas de criação de carne vegana.

As ferramentas de gestão também estão trazendo uma nova perspectiva de negócios para o produtor. Com um melhor acesso à internet no campo, existem diversas ferramentas tecnológicas chegando ao setor. Como robôs que tocam o gado, drones que contam o gado e avaliam o estado das pastagens, até ferramentas que auxiliam o produtor a comercializar melhor a sua produção. Um exemplo é o Pecuária de Decisão, que através de análise das informações da cadeia, auxilia o produtor a encontrar os momentos adequados para vender a produção ou comprar seus insumos.

Com a redução da mão de obra e a baixa qualidade da mesma, há uma urgente necessidade do produtor em adotar tecnologias que melhorem a sua eficiência produtiva e o uso da mão de obra.

Tendências Regulatórias

A abertura de mercados e o maior comércio mundial também trazem desafios para as Cadeias Produtivas. Passamos a ter que respeitar as regras de outros países, além das que regulam o nosso mercado.

Aqui podemos citar as regulamentações ambientais e sanitárias. Muitas indústrias do varejo mundial já estão exigindo a origem dos produtos de regiões onde não há desmatamento. Esta demanda tem levado muitas indústrias a exigirem do produtor, os certificados de origem.

Na China, dado o alto risco de contaminação e o medo da população de intoxicação, diversas pesquisas têm indicado que as questões de segurança da carne estão em primeiro lugar nas exigências do consumidor. Os fornecedores que apresentarem mais informações sobre a origem, terão preferência e melhores condições de preços.

Um trabalho da McKinsey & Company (M&C) demonstrou que o custo de transporte, as burocracias e tributações brasileiras são maiores que em alguns de seus concorrentes mundiais, gráfico 1. Assim como também, o custo de transporte.

Gráfico 1- Custos da Cadeia de Produção podem ajudar a construir cenários estratégicos visando a competitividade das exportações. 
Fonte: McKinsey & Company (M&C).

Gráfico 1- Custos da Cadeia de Produção podem ajudar a construir cenários estratégicos visando a competitividade das exportações.
Fonte: McKinsey & Company (M&C).

Tendências Sociais e Culturais

As tendências culturais também podem afetar fortemente uma Cadeia Produtiva. Como comentamos acima, a Índia e algumas regiões que estão crescendo no mundo apresentam questões culturais quanto ao consumo de carne bovina. Entre 1994 e 2012, apenas 29 estados indianos reduziram os vegetarianos em mais de 10 pontos percentuais e muitos estados proibiram o abate e venda de gado.

A China por outro lado, é o maior mercado de carne para as próximas décadas, apesar do lento crescimento da demanda.

Conforme observamos no gráfico abaixo, do mesmo trabalho da M&C citado acima, há uma necessidade de se construir estratégias para capturar o crescimento desta demanda.

Gráfico 2 – Preferencias locais por tipos de proteína.

Gráfico 2 - Preferencias locais por tipos de proteína. 
Fonte: McKinsey & Company (M&C).
Gráfico 2 – Preferencias locais por tipos de proteína.
Fonte: McKinsey & Company (M&C).

Tendências Socioeconômicas

As tendências socioeconômicas também podem trazer riscos ou ameaças para a Cadeia Produtiva. Segundo a FAO, o menor crescimento mundial e a desaceleração do crescimento populacional reduziram a taxa de crescimento da demanda por carne bovina de 1,7% na última década, para 1,2% na próxima década.

O gráfico abaixo, da M&C, também demonstra que a renda per capita e a cultura definem as tendências do consumo de carne no mundo.

Gráfico 3 – Consumo diário de calorias x Gastos anuais com alimentos pelas famílias.

Gráfico 3 - Consumo diário de calorias x Gastos anuais com alimentos pelas famílias. 
 Fonte: McKinsey & Company (M&C).
Gráfico 3 – Consumo diário de calorias x Gastos anuais com alimentos pelas famílias.
Fonte: McKinsey & Company (M&C).

Conclusão

A Cadeia Produtiva da Carne Bovina brasileira é extremamente competitiva no mundo. Segundo a FAO, o comércio mundial de carnes deve crescer 30% na próxima década, sendo que grande parte desta demanda virá de países em desenvolvimento e emergentes (China). Devemos, junto com a Índia, representar 2/3 destas exportações.

No entanto, existem grandes desafios a serem resolvidos nas áreas ambientais, regulatórias, sanitárias, logísticas, tributárias e burocráticas, para que possamos conquistar uma maior fatia do mercado.

Com o crescimento do comércio mundial, o produtor terá que participar cada vez mais destas discussões. Estas questões não serão resolvidas sem a sua participação efetiva na Cadeia Produtiva. Para isto, o desenvolvimento de instituições fortes é cada vez mais necessário para que as discussões tenham efetividade na Cadeia Produtiva da Carne Bovina.

>> Leia mais sobre as 5 Forças de Porter aqui!

>> Leia mais sobre como obter o Lucro Máximo explorando o Sistema Produtivo e a Cadeia da Pecuária de Corte em nosso artigo “Eficiência Comercial: Como melhorar?”.

>> Leia mais sobre tendências tecnológicas em nosso artigo “SIG: tudo que você precisa saber.” SIG, geoprocessamento, georreferenciamento e sensoriamento remoto são palavras que estão cada vez mais presentes no dia a dia de quem trabalha com o agronegócio. Essas novas tecnologias, entre outras, compõem a agricultura e a pecuária de precisão.

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